17 de set de 2011


A COLLAGE COMO TRAJETÓRIA AMOROSA
Fernando Freitas Fuão
Editora da UFRGS. 2011 (pedidos diretamente para editora)
http://www.livraria.ufrgs.br/ConsProduto.aspx?inddestaque=1
R$ 25, 00

Dados Técnicos
Projeto Gráfico e capa:Adriana Tazima
Editoração eletrônica: Rafael Marczal de Lima
Imagem da capa: Olhos de de Lempiska. 1989.Collage . Fernando Fuão
118 paginas.  14 paginas a cores (ilustrações collage)







COLLAGE: UM PRÓLOGO

Floriano Martins

Em 1972, dizia Roland Barthes que “tudo é linguagem, ou mais precisamente a linguagem está em todo o lado”.Três décadas depois, a linguagem nos sufoca, ou mais precisamente a linguagem ocupou tanto a nossa vida que já não sabemos o que somos, considerando no mínimo vago o axioma de que o homem é um ser de linguagem. Em parte, este desconforto ou sufocação vem de uma sutileza: a maneira como a expressão resignou-se a ser representação, como a linguagem foi devorada pela imagem, movendo-se o eixo do discurso. Barthes, já então, se referia a “um espaço novo em que o sujeito da escrita e o da leitura não têm exatamente o mesmo lugar”, e o dilema não é este, ou seja, não se trata de substituição do espaço de um pelo outro. Se a configuração desse duplo lugar constituía “todo o trabalho da modernidade”, hoje, temos que reconciliá-los de maneira que possam coabitar um mesmo ambiente. Isto, naturalmente, requer um outro entendimento acerca do significado de coisas e seres, a começar pela recuperação de um sentido distinto entre tais referentes: coisas e seres. Há um momento em que o ser abandona essa condição de princípio, deixando-se converter em peça manipulável.
Por outro lado, a coisa parece ter adquirido um atributo autônomo de manifestação. O homem já não decide nada por si, ao passo que uma cadeira transmuta-se em mala ou carro a depender de seu estado de humor. Exageramos no simbólico; onde uma coisa substitui a outra? Pelo contrário, acabamos estilhaçando toda perspectiva de analogia. Mas sim, por um tipo a ser considerado de retórica hiperbólica, um traço característico de nosso tempo. Trata-se de um desarranjo com controle de níveis de desconforto, ou seja, uma perturbação fiscalizada, sob domínio. Não quero dizer, aqui, que os signos tornaram-se vazios por atividade, o que pareceria ir de encontro à dinâmica da própria existência humana. Observemos que, em aparentes ausências de propósitos é onde mais vemos um sistema instalar-se com sutil virtuosidade. Há toda uma ficção dos estados paranóicos que atua neste sentido, gerando uma cumplicidade, em muitos casos, passiva. Isso implica em que os signos, hoje, se converteram em máscaras, o que nos traz de volta à dissensão entre expressão e representação.
Façamos as perguntas diretas, que nos obrigam a uma clareza na resposta: o que exprimimos? O que representamos? E, eis aí a hipóstase brilhante: ou exprimimos ou representamos. Com isto se apaga toda a perspectiva mágica da existência. E todo o conhecimento resultou em nada. Pior: toda a aventura humana – refiro-me à aventura do ser, o que naturalmente inclui o mito – cai por terra. Para isto estivemos? Para, ao final do dia, dizermos que tudo aquilo que aprendemos amanhã de nada servirá, porque não o assumiremos? A representação, em si, é uma expressão. Não se trata de uma veleidade de classe ou de uma campanha publicitária. Representamos aquilo que somos – o que inclui as artimanhas do desejo. Da mesma forma, a expressão, em si, surge como uma representação. Em uma época devotada à ascensão, do que mais carecemos é de assunção. E este, em definitivo, não é mais um jogo de palavras.
Há uma forma definitiva para o ser? É como indagar: há uma forma definitiva para a criação? O homem se exaure quando se esgota a criação. Mas há, isto sim, um atropelo de imagens, uma retórica de imagens, que, por vezes, embota nossa expectativa em torno do homem e da criação. O Surrealismo soube, no momento certo, alertar para o fato de que sem imaginário o homem não seria nada. Em grande parte, suas idéias sobre símbolo e ilusão foram devoradas pela indústria da propaganda; foram desacreditadas, não por analogia falaciosa com suas demandas psicóticas, mas, antes pelo artifício do fantástico, de um real acima de todas as possibilidades, de uma quimera galopante pelas pradarias do patético. Entretanto, quando há um corte, um simples sangramento inesperado, resultante de um golpe de faca em um dedo, como reagimos? Como sublimar ou aniquilar o significado da dor, da dor em si? Evidente que, o ato, não pára no ato, que o desejo não se restringe em si mesmo. Tudo o que percebemos, por mais estático, é pura dinâmica. Nada se dá isoladamente.
O que se passa é que o alerta do Surrealismo, para muitos, tem 80 anos de idade. E sua leitura se confunde com a de um manual qualquer. Leitura é interpretação e interpretação é vivência. De tal maneira que, reler o primeiro manifesto do Surrealismo, hoje, implica em atualizá-lo, no sentido de perceber que a expressão segue cobrando duramente os abrandamentos da representação. Evidente que, extrapolar vícios de espaço e tempo cabe a toda leitura atenta relativa a cada época. Um dos aspectos mais importantes ressaltados pelo Surrealismo vem do fato de que a realidade extrapola o âmbito de sua montagem. Neste sentido, a collage é a expressão de recusa a um mundo indesejável: o da representação como retórica. A transfiguração defendida por seu criador, Max Ernst, deve ser mantida até hoje, o que implica no surgimento de umas figuras tanto impensáveis quanto indesejáveis. Há que identificar toda a carga retórica do Surrealismo e perceber que novas expressões validam as fontes e assumem uma responsabilidade outra. Deslocamento de imagem ou linguagem? Este livro aponta que um processo natural de desdobramento desses recursos tornou-se possível, definindo uma linguagem outra, uma leitura substanciosa, sobretudo, porque sabe somar, em meio a uma tradição afeita à subtração.
A rigor, este é o primeiro volume dedicado ao tema que se publica no Brasil. Antes dele, há uma referência essencial, Collage em Nova Superfície (1984), de Sérgio Lima, porém publicação de difícil acesso e com alguns lamentáveis problemas de montagem. Fernando Freitas Fuão começa a destacar-se como um estudioso sério do assunto e que certamente terá uma contribuição cada vez maior a nos dar em termos de reflexão acerca da collage entre nós. Pouco me estendo a este respeito pelo simples fato de que o próprio livro sabe de forma a mais instigante entrar na matéria, envolvendo o leitor e o apresentando um mundo verdadeiramente mágico e muito mais à sua mão do que se pudesse até então imaginar. Não é só a trajetória criativa da collage em si que se pode considerar como amorosa, mas também o trajeto traçado por Freitas Fuão em todo este livro encontra-se ambientado nesta mesma condição amorosa. E dentro de sua maneira apaixonada de abordar o tema, conclui um dos capítulos chamando a nossa atenção para algo capital: “O poeta será sempre aquele que não só abre as fendas e separa os corpos quando necessário, mas também o único que sabe tornar a começar, unir, colar, o que foi realmente separado”.
Ora, já no princípio deste A Collage como Trajetória Amorosa, ao referir-se a técnicas de representação, Freitas Fuão alerta que “um dos prejuízos da representação que se pretende realista é a fragmentação do mundo” - vale lembrar que, na biologia, por exemplo, a fragmentação está ligada à reprodução assexuada. Qual a relação entre o poeta e a linguagem em nosso tempo? A quebra de um sistema de conceitos ideológicos por que passou a segunda metade do século XX nos deixou a todos desorientados. Poderíamos aqui dizer que o mesmo poeta que soube, durante o período das vanguardas, abrir as fendas e separar os corpos, parece não estar sabendo, agora, “tornar a começar, unir, colar, o que foi realmente separado”. Há duas – quando menos – perspectivas a serem consideradas: o poeta não percebe o quanto que influiu para a fragmentação do mundo; o poeta não aceita sua nova responsabilidade. Talvez caiba aqui dizer, como o faz Freitas Fuão ao referir-se às relações entre representação e cola, que tudo não passa de truque, “uma sujeira que pretende que a coisa, depois de colada, seja inteira, quando, em realidade, não o é”. Mas onde aplicar a cola, onde aplicar a representação?
Este livro consegue estabelecer uma relação íntima impressionante entre a realidade e seu objeto de estudo. Não se trata apenas, como diz o autor, de orientar o leitor “na grande pluralidade de significados que a palavra collage adquiriu ao longo de sua descoberta”, mas também de nos fazer crer que temos todos papéis preponderantes no roteiro de nossa própria existência, onde aspectos como representação e fragmentação são mais fundamentais do que muitos imaginam, e onde a arte desempenha um papel dúbio tão-somente por força da condição vacilante do artista. O que fragmentamos, recortamos, encontramos, colamos? Há um capítulo destinado a cada um desses truques amorosos. O leitor que sabe acompanhar um texto como quem liga pontos entre múltiplas experiências – incluindo a sua e a do autor do livro -, decerto saberá compreender o quanto que a collage está presente em nossa vida. O mundo todo hoje não passa de um grande truque? Vamos ao livro.

COMENTARIOS
Fernando, foi uma boa surpresa receber os seus livros, conhecer sua obra de colagens que transverbera o cotidiano portoalegrense, funde o fantástico ao primitivo e resitua a civilizacão nos seus paradoxos.
Acresce uma sólida bibliografia, uma forma de pensar que dá sustentação à criatividade.Parabens!
Abraço ars
Affonso Romano de Sant'Annna

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