8 de abr de 2009


A TORRE SÃO PAULO,
uma idéia de collage no projeto do arq. Gaetano Pesce
Fernando Freitas Fuão

Alinhar ao centro
A Torre São Paulo , um projeto idéia do arquiteto italiano Gaetano Pesce, constitui-se um verdadeiro projeto collage,com uma forte relação com o jogo surrealista do Cadavre Esquis. Poderia-se dizer que a Torre São Paulo é um cadavre esquis arquitetônico, realizado num sentido vertical. Um cadavre esquis ou "cadaver esquisito"ou ainda "cadaver delicioso" é um estranho jogo surrealista, inicialmente praticado em 1925, no qual se tomava uma folha de papel dobrada várias vezes, em que os participantes do jogo iam escrevendo ou desenhando a primeira coisa que lhes vinha a mente a cada vez, e sem ver o que haviam desenhado seus companheiros. Para tal Gaetano Pesce convidou uma série de arquitetos brasileiros para trabalharem no projeto.Segundo a concepção de Pesce, o edifício é composto por três torres: a Torre Jardim, a Torre Serviço e a Torre Apartamento.A Torre Jardim tem projeto de paisagismo de Burle Marx; na Torre Serviço tem elevador, escadas e hall de serviço.
A Torre Apartamento permite que o comprador desenvolva, através de um dos onze arquitetos, um apartamento em dois níveis com até 406 m2 totais de área privativa. Onde a criatividade será largamente utilizada para atender às necessidades pessoais de cada um dos compradores, seja determinando o número de dormitórios e varandas, seja escolhendo a localização das salas e banheiros, ou mesmo decidindo como será a fachada. A originalidade de sua concepção atraiu a atenção de arquitetos mundialmente reconhecidos, tais como, Frank Gehry, Emílio Ambasz, Hans Hollein, Álvaro Siza, Jean Nouvel e muitos outros. E tem também despertado discussões acadêmicas em todos os cantos do mundo.Em verdade a Torre São Paulo é uma rua vertical de casa. O morador da Torre São Paulo não compra um apartamento com sua planta padrão e seu número de comodos estabelecidos. Aqui ele compra um terreno e uma coisa chamada liberdade. A liberdade de projetar seu apartamento na Torre São Paulo é quase que absoluta. A idéia de projetar um edifício, armadura, uma estrutura vazia, onde cada morador tem a possibilidade de construir seu apartamento da maneira que mais lhe agradar, não é nova. Para tal poderíamos nos remeter ao projeto para o edifício na cidade do grupo Site, a Okus House de frei Otto. Na Torre São Paulo, existe uma estrutura, também que suporta os apartamentos, só que neste caso a estrutura propriamente vertical, e as formas, as fachadas de cada apartamento adquirem uma grande autonomia, transformando-se praticamente em residencias que são empilhadas uma em cima das outras sem o menor laço de continuidade formais ou estruturais umas com as outras. Pode-se dizer que no projeto de Le Corbusier e do grupo Site, a estrutura é predominante e esteriotipada sobre forma de caixas, no projeto de Pesce a estrutura é interiorizada, implícita e velada em detrimento da variada forma das partes que compõe o todo. Nos projetos anteriores a variedade das partes esta submetida a unicidade do todo estrutural, enquanto na Torre a variedade das partes fazem o todo.Tal como no Cadavre Exquis cada participante desconhecia o projeto do outro. Este artifício propiciou, de certa forma a tão desejada descontinuidade entre um projeto e outro, entre um apartamento e outro. Algo praticamente idêntico a uma collage onde cada figura que se junta a outra possui uma identidade toda própria, deixando transparecer, em muitos casos, a marca do recorte. Aqui compreendida como um intervalo, ou uma ausência de continuidade seja ela formal, por cores ou simplesmente estrutural.Pode-se dizer a Torre São Paulo se utiliza de dois recursos da collage, um que não é da collage: O Cadavre Esquis, mas sim, no desenho, mas que a collage incorpora essa idéia de continuidade baseada em elementos descontínuos. E outra a acumulação de figuras, acumulação de fragmentos, característica de algumas collagens dadaístas, e de alguns mosaicos. A Torre São Paulo por não deixar transparecer sua estrutura, possibilitou que cada apartamento fosse um duplex, permitindo assim em termos de leitura um encobrimento, ou um disfarçe da altura total do edifício quando lido mediante o número de pavimentos. Alguns apartamentos que são duplex, apresentam aberturas bem marcadas para cada pavimento, entretanto outros, possuem aberturas que compreendem os dois pavimentos,assemelhando-se a residencias. Isso faz com que, se leia o edificio composto não só por fragmentos distintos, mas também fragmentos de escalas diferentes ou seja: alguns apartamentos parecem casas miniaturas em relação aos outros.A Torre São Paulo apresenta ainda outra fantástica característica que acentua seu caráter de collage aleatória e liberdade de estrutura. Por não possuir bordas delimitadas, e uma estrutura projetada para suportar balanços, foi com que cada fragmento não obedecesse a um ordenamento estrutural de alinhamento, propiciando que cada figura, cada apartamento, ora sobressaia-se ao apartamento debaixo, ora apresentando reentrâncias, jardins, sacadas, etc Nenhuma lógica liga um apartamento ao outro, nem as aberturas, cada apartamento possui aberturas diferentes dos demais, linguagens formais, assinalando assim as características dos projetos de cada arquiteto. Mas existe de certa forma uma continuidade do texto na Torre, e essa continuidade é dada pela área de cada apartamento projetado, e um certo determinismo ocasionado pela própria estrutura, que exigia um certo tratamento ortogonal nas esquinas, ainda que não alinhadas verticalmente. A Torre São Paulo nunca foi construída.

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