6 de abr de 2009




O CORPO FIGURA.
A collage em João Manta
Para uma compreensão do corpo e sua representação na collage

Fernando Fuão

Triste visibilidade aquela que inaugura o reencontro do corpo consigo mesmo. Todo encontro é sempre um redescobrir ou um recortar o próprio corpo. O jogo de encontros de figuras na collage reflete toda a problemática do corpo com sua representação. Ver é suportar a visão, a visão do olho cortado. A collage "encontro" de João Manta retrata a especificidade do encontro das figuras na collage: ali está o corpo-figura frente a seu recorte, totalmente descolado, refletindo uma visão bastante distinta daquela que Narciso se encontrou pela primeira vez no charco romano. E o charco pode ser considerado o retrato clichê. O recorte não assegura mais a projeção do representante no representado sobre as leis da mimeses fotográfica. A figura especular, a projeção no espelho semelhante à fotografia, foi transferida a outro universo (colocada em suspensão, destinada à errância) pelo artifício do recorte. Dela nada se sabe, até no lixo pode estar, tudo o que sobrou dela foi seu tênue contorno, sua silhueta, marcas de um corpo que partiu. Igualzinho ao mito da origem da pintura. Aqui a figura vale por seu contorno. A collage permite ao corpo ver o que se esconde no interior de seu corpo, quando está desapropriado de sua falsa pele, se sua representação fotográfica, de seu narcisismo. Como disse Sérgio Lima: "O campo da collage é sensível à expressão dinâmica, ao que chamamos visão ativa, uma visão que não existe para o espelho, ou para uma simples cópia. É uma espécie de investigação. Investigar o corpo do outro, sua representação, o nu, como se quisesse ver o que tem dentro, sua essência, seu significado." # O corpo recorte é todo uma alegoria, uma alegria. O recorte faz a abertura, descobre o velo, e fixa o novo corpo surgido por detrás do virtualismo e da espectralidade da representação, do espelho das memórias. Põe em evidência o uso do corpo, já que um corpo sem uso é incorporeidade (isto é função dos espelhos), do mundo virtual, vídeos, e de todas as demais representações que visam a autentificação e controle sobre os corpos: registro institucional, controle do poder, saber. Fora do uso não há corpo. O recorte descobre a falsa representação dos espelhos. Recortar é seduzir. O recorte talha o espelho, como se uma nuvem cortasse a lua para que a fenda enturve a razão e deixe aflorar a luz. Desencontro da sedução com o corpo. Etimologicamente a palavra seduco confirma a concepção da sedução como anulação e da palavra sedduco como separar, tirar, dividir. A partícula sed indica separação, isolamento, distanciamento. Nudez da representação. Ao retirar a máscara do reflexo e anexar um novo universo, João Manta proporciona uma nova dimensão à narrativa inicial, ensimesmada. Entretanto, se observarmos melhor, nem toda figura total foi recortada, apenas o reflexo do corpo exposto, deixando a lâmina, o casaco exposto. O poético, o retórico vem dessas partes que garantem a trova de visibilidade, dessa parte da mimese, da representação institucionalizada, da moldura, da situação de imagem sempre referência, de se ver frente ao espelho todos os dias. Dessa troca de visibilidade entre o representante, o representado e observador. O poético opera com coisas que são e não são ao mesmo tempo. O jogo de imagens entre verossímil e inverossímil encerra todos os segredos da collage. O encontro reside nesse entrever a verdade e a mentira, num desvelamento do corpo, na fenda do espelho, na fenda do desejo. O casaco recobre, como uma verdadeira pele o vazio interior do corpo do ser. A incorporeidade de um corpo que é pura virtualidade. Assim através do recorte, do que é deixado de fora, é que se encobre o vazio do ser, seu contorno, esse trago invisível. É a marca que mostra o descolamento da representação de seu próprio corpo. Finalmente Manta consegue um efeito de pura reciprocidade que se manifesta no espelho que vê e é visto. Dois momentos que se acertam continuamente quando efetivamente se dá o encontro. Pois o encontro do eu, nunca é com o eu, e sim com o outro. A figura é sempre uma metáfora do corpo. O corpo é metáfora da luz. A cada luz, poeticamente o homem habita e se encontra em seu corpo e não em sua representação.

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