COLLAGE UMA CONDENAÇÃO
Estamos condenados a amar
fernando freitas fuão
`Estamos condenados a amar`, disse me um enfermeiro numa conversa num bar, fiquei atordoado pelo impacto da frase, não esperava ouvir tão repentinamente, tampouco se constituía numa declaração amorosa.
Estamos condenados a amar, pensei logo em algo menos penal naquele momento, mas quica uma destinação à amar, uma destinerrância, de vagar de um amor em outro, me parecia mais poético. De pronto, também aceitei a afirmação sem mais reservas, talvez ele estivesse absolutamente certo em sua sentença. Estranha punição existencial, simultaneamente a mais sublime condenação; a felicidade e amor como condenação da existência humana. Quem está hoje preparado para viver isso? Vagar de amor em amor, condenados a amar mesmo que não se tenha ninguém para amar, só o desejo de amar o outro, a outra. Essa beleza de frase saindo de um enfermeiro potente, retumbava. Parecia que já havia pensado sobre isso, sobre uma certa errância amorosa das figuras da collage, metaforicamente, que estavam condenadas a vagar de encontro em encontro, em busca de uma acasalamento. Era a errância das figuras fragmentos na collage. Aproveitei essa condenação para transpor, mais uma vez, para o pensamento de Roland Barthes em seu livro Fragmentos de um discurso amoroso, do qual me servi extensamente para elaborar uma explicação para A Collage como trajetória amorosa.
Para melhor explicar o movimento da collage como trajetória amorosa, caracterizado por essas diversas etapas, me apropriei, literalmente, da explicação dada por Roland Barthes para a trajetória amorosa, em seu livro Fragmentos de um discurso amoroso, cuja estrutura praticamente se assemelha também a uma collage, incorporando citações de Sócrates, Platão, Verlaine e Goethe. Barthes assim descreveu o discurso amoroso, ou o movimento do Encontro amoroso: melhor: as etapas do amorosamento.
“Se bem que o discurso amoroso seja apenas uma poeira de figuras que se agitam segundo uma ordem imprevisível, como uma mosca voando, num quarto, posso atribuir ao amor, pelo menos retrospectivamente, imaginariamente, um movimento organizado: é por essa fantasia histórica que às vezes faço do amor: uma aventura. O trajeto amoroso parece então seguir três etapas (ou três atos): a primeira é instantânea, a captura (sou raptado por uma imagem); em seguida vem uma série de encontros (encontros pessoais, telefonemas, cartas, pequenas viagens), no decorrer dos quais exploro, extasiado, a perfeição do ser amado, ou melhor, a adequação inesperada de um objeto ao meu desejo: é a doçura do começo, o tempo do idílio. Esse tempo feliz adquire sua identidade (sua limitação) pelo fato de se opor (pelo menos na lembrança) à continuação: a continuação é o longo desfile de sofrimentos, mágoas, angústias, aflições, ressentimentos, desesperos, embaraços e armadilhas dos quais me torno presa, vivendo então, sem trégua sob a ameaça de uma decadência que atingiria ao mesmo tempo o outro, eu mesmo e o encontro prodigioso que no começo nos descobriu um ao outro.”
“Apesar de que todo amor (encontro de uma figura com outra) é vivido como único, e que o sujeito rejeite a ideia de repeti-lo mais tarde em outro lugar, às vezes ele surpreende em si mesmo uma espécie de difusão do desejo amoroso, ele compreende então que está destinado a errar até a morte, de amor em amor”.
Na collage as figuras estão condenados a errar, mas a amar é outra questáo. Porém, mais que isso creio que todo collagista esta condenado a amar a collage, esta condenado a ser um collagista em qualquer circunstancia, a condição amorosa. Vamos por partes para entender a questão da condenação na collage, e da collage, e do collagista com a collage. São três sentenças,
A condenação das figuras na collage. Devemos entender que o sentido da collage está justamente na imperfeição, na obra inacabada, na improvisação, na interrogação, e de um eterno superar das decepções amorosas das figuras, na eterna circulação do significado das imagens. Um constante reestruturar das figuras de acordo com as novas interpretações. A “continuação”, tal como definiu Barthes, é o movimento derradeiro, denúncia da imperfeição e do caráter trágico da eterna espera (das figuras-fragmento), dos encontros não bem sucedidos, . Representa, ao mesmo tempo, o movimento significativo que tende a tirar as figuras da solidão, do egocentrismo, do isolamento do encapsulamento, do individualismo e devolvê-las ao âmbito da criação coletiva, ao da cooperativa dos namorados unidos. Um trabalho no qual não existe a obrigatoriedade de um produto final, somente de processos sobre processos, de produtos temporais oferecidos ao próprio tempo. A collage é um oferecimento à vida, e uma recusa ao congelamento e uma conjugação amorosa entre os seres viventes.
Essa condenação das figuras trata-se também de uma entrega absurda de uma figura à outra de uma errância amorosa. ERRÂNCIA segundo Barthes: "Apesar de que todo amor é vivido como único e que o sujeito rejeite a idéia de repeti-lo mais tarde em outro lugar, às vezes ele surpreen de em si mesmo uma espécie de difusão do desejo amoroso, ele com. preende então que está destinado a errar até a morte, de amor em amor".
A condenação ao colagista é justamente amar a collage, amar cada uma de suas collages, mas sobretudo uma especie de entrega, uma servidão de seu corpo, sua mãos, sua cabeça para a vida das figuras na collage, que não cessam de errar e vagar em busca de um acasalamento, uma conjunção, ambos condenados, collagista e figuras, usufruem da maravilha do encontro amoroso, de realizar a festa das figuras, e de seus emparamentos. Entretanto, o collagista, muitas vezes inconscientemente, é subserviente de seu trabalho na collage, visto que as figuras tem vida própria e ele parece ser apenas uma mediação para se realizar o encontro das figuras. E, o collagista vive feliz assim dessa alegria de proporcionar esses encontros, tanto é verdade que se exprime em risadas ao ver sua collage.
E como termina um amor? Explica Barthes: Em suma ninguém exceto os outros nunca sabe disso; uma espécie de inocência mascara o fim dessa coisa concebida, afirmada, vivida como se fosse eterna. O que quer que se torne objeto amado, quer ele desapareça ou passe à região da amizade, de qualquer maneira, eu não o vejo nem mesmo se dissipar: o amor que termina se afasta para um outro mundo como uma nave espacial que deixa de piscar: o ser amado ressoava como um clamor, de repente ei-lo sem brilho. Esse fenômeno resulta de uma imposição do discurso amoroso: eu mesmo (sujeito enamorado) não posso construir até o fim minha história de amor: sou o poeta (o recitante) apenas do começo; o final dessa história, assim como a minha própria morte, pertence aos outros; eles que escrevam o romance, narrativa exterior, mítica.
Prossegue Barthes, "Ao longo de uma vida, todos os "fracassos" de amor se parecem (pudera: procedem todos da mesma falha). X... e Y... não souberam (puderam, quiseram) responder ao meu "pedido", aderir à minha `verdade`; não mexeram uma vírgula do seu sistema; para mim, um não fez senão repetir o outro. E, entretanto, X... e Y... são incomparáveis; é da diferença entre eles, modelo de uma diferença infinitamente reconduzida, que retiro a energia para recomeçar. A `mutabilidade perpétua` (in inconstantia constans) que me anima. A errância não iguala, faz mudar de cor: o que volta é a nuance. É assim que vou até o fim da tapeçaria, de uma nuance a outra (a nuance é esse último estado da cor que não pode ser nomeado; a nuance é o Intratável).
A decadência amorosa vira alienação, tanto no sentido perceptivo como no sentido linear, textual. Pura cegueira. Essa alienação amorosa tem múltiplas formas.Por exemplo, a união simbiótica, que é uma forma de amar o outro com submissão (na qual a figura perde o seu significado original em detrimento da figura-base, suporte, do contexto), o amor idolátrico (em que ambos se querem até o delírio e se vêem como seres excepcionais), o amor despótico, o amor possessivo, etc. Por sorte, o grude amoroso não é indissolúvel, tem uma solução: constitui-se superando a oposição apaixonada, ou se destrói pela hostilidade - o oposto da hospitalidade que vai se criando entre as próprias figuras. Ou ainda mais simples: basta colocar pouca cola para não danificar as figuras de papel, que podem ser facilmente
descoladas, “deslocadas”, e aproveitadas em outras circunstâncias amorosas.
Então essa sentença não é uma pena de morte, essa condenação é uma pena de vida. Para essa condenação de amar não ha perdão. As figuras na collage estão condenadas a amar, de errar, vagar. Entretanto tal pena pode se aplicar ao collagista? Ou ao menos de sua relação amorosa com a collage, com as figuras que atuam na collage? Essa figuras são errantes até o momento que se consagra com a cola?. Raramente, muito raramente, o collagista vai descolar essas figuras que já foram coladas na collage, ele raramente volta descolar o já colado. Uma vez coladas parece que o movimento da figuras cessa, caindo em um estado de paralisia eterna em suas conjugações ja fixadas. E ele, o collagista, de pronto já está montando outra collage que as figuras estão lhe solicitando, talvez ele não passe de um servente das figuras que ele mesmo seleciona, não cansa, não cessa, nunca se fixa numa collage só.
Como pode uma sentença existencial como esta ser comparada a condenação. Vagar de amor em amor seria então, uma libertação, totalmente oposto a condenação no sentido comum que estamos acostumados a entender como uma punição, uma contenção, uma prisão..
A collage é libertaria em sua essência, ou poderia ser quando o collagista se percebe com um agente, quando ele transborda o mero `recortar x colar`, fazer composições ele abre enquanto sujeito dessa ação ao horizonte das pluralidade das significações, a assustadora pluralidade de sentidos, a pluralidade de existência e de amores, então torna-se puro acolhimento em sua libertação. Segundo o filósofo Jean-Paul Sartre, o ser humano está condenado a ser livre porque não se criou a si próprio, entretanto ressalva: é responsável por tudo o que faz.
Então acompanhemos o pensamento de Sartr. Para Sartre, o ser humano está condenado a ser livre porque não se criou a si próprio, mas é responsável por tudo o que faz e desfaz. Sartre acreditava que a liberdade é a condição primeira para a consecução da vida. Entäo, condenados a amar pode se opor a condenados a serem livres? Condenado a amar é de tal ordem condenados a liberdade?, Liberdade de ser o que se quer ser, tal como uma figura que muda de sentidos conforme ao que se emparelha, se junta? Liberdade implica nesse sentido, a perda de significação e do proprio sentido da existência?. Não ter um sentido de vida nem para a vida? Amar por amar, não seria uma redução mas sim uma expansão plena do próprio sentido de amar? Uma condição da própria liberdade, errar de amor em amor em seu amplo sentido ascendente como entendiam os gregos como Philia. , Isso não significaria sempre entrar em relação com o outro com a outra, viver a interação semântica das figuras que estão postas em jogo em determinado momento, em determinado campo da collage a ser construída, executada. Uma execução quase penal
Devo confessar que a ideia de uma condenação relacionasse com a possibilidade de ter cometido algum pecado, crime, fato esse revelador que também sob o peso de uma moral e ética. Vagar de amor em amor não pode ser considerada condenação, se assim o for é a mais terrível das condenações; ou mesmo condenado a amar um só amor. Mas não é de um só amor , entre duas pessoas, falo de um amor não egoista que compartilha o mundo.
A recusa ou escolha a entrar em relação com o outro, amar o outro, odiar e amar, resulta na solidão, na relação do eu e do consigo mesmo. A figura solitária, insignificante, portadora de uma só significação em busca de suas outras significações interiores. De acordo com a concepção de Nietzsche, a vida é profunda dor e destruição, e somente a arte seria capaz de proporcionar ao indivíduo força para aceitá-la e enfrentá-la. Essa solidão em Nietzsche, porem se constitui um estado criador, lugar onde é possível manifestar nossa “Vontade de potência”, potencialidade geradora, potencialidade vital, local criador do homem que se permite gerador do mundo que o cerca. Homem como criador: “possibilidade de vida através das artes e ilusões” Mas de que arte fala Nietzsche, a arte e a estética iluminista, autônoma, onde o homem é o grande criador? Complicado reduzir-se a tal ponto.
Propunha ainda Nietzsche, “para um homem devoto não existe solidão esta invenção foi feita somente por nós, os sem-Deus”. Resta a arte geradora, que cria constantemente, supera a imobilização do “ser” e assume movimento, assume um vir-a-ser, constante movimento e transformação, pois não há mais valores inquestionáveis, tudo é humano, o rio não é sempre o mesmo.
Assim, os existencialistas negavam e negam que haja algo como uma natureza humana uma essência universal que cada indivíduo compartilhe; ou por outro lado para os crentes esta essência é um atributo de Deus, uma dádiva. Portanto, para um existencialista, não é justo dizer "sou assim porque é da minha natureza", mas para o crente "sou assim porque Deus quer".-Mas para os ateus, não se sabe ate hoje o que Deus quer, tampouco tem certeza que exista, e portanto a palavra condenação não é mais que uma sequela de uma penitencia que tem suas origens judaico cristão, Agora isso não quer dizer que por trás da palavra condenação não existam outros significados, talvez mais próximos ao sentido singelo e carinhoso que o enfermeiro me disse, e que deva a se aproximar a uma ideia de destino mesmo, uma fatalidade, não importando de onde advenha, destino entre viver e morrer e até do morrer, uma condição, a trágica condição humana, que a collage tenta ressuscitar a cada fixação, a cada colagem.
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