4 de jun de 2015

Viagem - olhar estrangeiro

Marcia e Mauricio Planel, atados pelo fio da collage, viajam, andam juntos construindo lugares inusitados. Trabalham sobre destroçado, fragmentado, desatado, cheio de cacos; re-ligam tudo por onde seus olhos passam.  Para os que fazem collage, o amor é o fio (o philo); a corda que ata as figuras, as coisas, os seres, as fronteiras do tempo, do espaço e da existência. A corda é o que aciona o movimento, a (an)dança das figura nas caixas de música, ou sobre a folha de papel. A collage (e)motion.
Cada um a seu modo, tem um estilo inconfundível, a palavra estilo refere-se ao estilete, aquilo que inscreve em profundidade, na profundidade do sentido e do significado. Ato sensível, delicado, preciso e inconfundível, seus trabalhos circulam entre os rasgo manuais e corte digitais, mas tudo trabalho da mão, do toque e do ‘com-tato’. Fato esse que se relaciona ao carinho e cuidado que tratam as figuras e imagens.
Esse é corte que libera as figuras errantes para os encontros assim as figuras vão se juntando, se casando; o resultado são estranhos seres objetos e paisagens surreais.  No trabalho de Marcia tudo se transfigura em outra coisa, nada é o que é, tudo está no lugar de outro, substituindo, tudo se junta numa coisa só; nos trabalhos do Mauricio tudo concorre para a narrativa, num constante reenvio de uma figuras para outra, em relações de associações, construindo contextos fictícios onde o humano sempre assume o primeiro plano. Mauricio faz collage para ilustrações editoriais para diversas revistas, narra através de insólitas imagens os conteúdos das matérias.
Há um sentido de verticalidade na forma em que Marcia constrói suas collages, se sobrepõem como um edifício formando um corpo único, centralizado dentro do quadro, em Mauricio: um predomínio da construção das relações a partir das figuras humanas, numa estrutura clássica da imagem, a figura humana em primeiro plano. Nessa seleção e collages do Mauricio nos propicia uma revisão da cultura dos anos 50-60, da tecnologia e sua cultura Pop, e sobretudo das relações de poder e totalitarismo. Ali estão temas como: som-música, florais, motores e potencias, orbitas e luas, hastes-remos, pernas-amputações. Temas esses que de alguma forma funcionam como metalinguagem das caixa; alguns deles relacionado ao movimento, a viagem.
Os processos de construção das collages dos dois são muito próximos, mas há variações. As collages de Marcia começam como colagens feitas com a mão e coração (handmade collage), uma figura se junta a outra para dar a partida, essa é a base e o início de tudo o que se segue. Como ela mesma diz: “uma espécie de relação fechadura-chave”, uma relação de hospitalidade entre as figuras; a fechadura é a figura receptáculo e corresponde exatamente a figura da espera, a figura do hospedeiro na collage, a figura de base que recebe as outras. A fechadura é por onde posso olhar para o outro lado mas ainda não posso abrir a porta porque ainda falta a chave, o hospede exato, a figura do errante para abrir.
A "chave" é parte digital que Marcia acrescenta, posteriormente, à parte feita a mão, à espera: a fechadura, que dá início a abertura, questão essencial ao acolhimento na collage.
Todas as construções entre, e com, figuras se dão a partir dessa relação, que na maioria das vezes é transfiguradora de sentido, mais iluminadora. A transfiguração é uma característica bem clara, para ambos artistas, desde o início de seus trabalhos.
As caixas de musica da Marcia são um universo a parte, são camadas de imagens que se colocam como um labirinto, ao ser acionada a corda pelo visitante. A corda acorda as figuras para a dança, a (an)dança circular e orbital, faz o olhar caminhar pelo labirinto das imagens dispostas atrás. Tudo se junta e se disjunta num jogo caleidoscópico. O coração da caixa de música é o motorzinho exposto, a corda; o cilindro e suas hastes ‘comcordam’ e discordam tudo, aciona a relação do encontros e a circulação, o cíclico das imagens, tudo gira em torno de si mesmo como ‘sufis’.

Fernando Fuão. Abril 2015

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