18 de mai de 2013


TRES  MOMENTOS  DA COLLAGE. 
fragmento de "As bordas do tempo"
fernando fuão


À distância, podemos observar alguns estágios na trajetória da collage, enquanto princípio de criação. Uma trajetória que assinala um processo de disseminação explicativa não só do mundo: “O mundo é uma collage, como afirmou Nils Oil -Lund” [1] mas também que se coloca como presença viva no conceito de biopolítico. Entranha-se como estrutura social produtiva, duvidosa, temerosa, perigosa.

Inicialmente, a collage anunciou a arte matérica, como observou o filosofo Marchan Fiz[2], ela, enfim, é a representação da própria arte matérica em sua essência, do materialismo. Ela própria, ao denunciar o mundo material, acentuou o materialismo. Isso se pode observar em seus inícios com os papiers-colles de Picasso, Braque e Gris, produzidos nos anos de 1910-14, que colocaram em cheque a representação ilusionística clássica, o conceito de profundidade, de mimesis, sem, entretanto, abordar o tema da centralidade.

Num segundo momento, a partir dos anos 30, pode-se observar o deslocamento da collage com o surrealismo e com a psicologia de Freud. A collage seria o melhor veículo para explicar o funcionamento do mundo dos sonhos, o inconsciente, e a chave desse enigma se encontraria nas collagens de Max Ernst. O universo das máquinas do início do século (o princípio da montagem) e a collage se entranhariam em todos os campos da arte, e digamos de um modo geral, no universo das representações, dos significados, na gramática, na geometria das formas, em todo processo de criação ligados à arte, na produção do mundo moderno. Num terceiro momento, que está aí e que não cessa sua anunciação, a collage transborda o universo da arte, excede o campo da linguagem, do inconsciente, da representação das artes, excede o conceito industrial produtivo e se despeja sobre o ser, entrando em seu interior, em sua vida, como se fosse um enxerto, um Aliens, fazendo-se vida, fazendo-se mundo organizável, segundo sua lógica. Quando se inocula no político, a collage arrasta para dentro do corpo político tudo o que era antes considerado arte, e agora deixando de ser, ao se tornar biopolítico, a collage faz desaparecer do mundo sua arte. Agora, os corpos vivos se tornarão de certa forma figuras, só imagens. É isso que faz a era representacional: transformar seres em figuras, vidas em imagens, afetos em representações.


[1] LUND, Nils Oil. Collage Architecture. Ernst&Sohn. Berlin, 1990
[2]  FIZ, Simón Marchán. Del arte objetual al arte del concepto. Madrid: Akal, 1986.

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