9 de abr de 2011

AS BORDAS DO TEMPO
Fernando Fuão
Esse ensaio sobre Antonio Negri e a collage surge de uma experiência pessoal ao ler Kairòs, Alma Vênus, Multitudo, numa praia desolada#. À medida que lia, percebia o quanto o conceito de collage, como havia apresentado em “A collage como trajetória amorosa” e “Arquitectura como Collage”#, estava presente no pensamento de Negri em sua Alma Vênus.
Assim, esse ensaio lança-se além das reflexões sobre as nove lições de Negri, buscando atingir aquilo que eu ainda não havia tratado com a devida intensidade na collage: os contornos, as bordas das figuras, as bordas da matéria, as bordas do ser, as bordas das multidões...
Collage, aqui, não é uma reflexão sobre o procedimento ou a técnica, mas sim um questionamento sobre os limites da representação, sobre a organização dos corpos no espaço, na vida. Sobre essas imprecisões, por assim dizer, a collage se delineia como os novos contornos do ser.
Portanto, em meio às “nove lições ensinadas a mim mesmo” de Negri, misturam-se também reflexões, muito pessoais, de uma experiência em torno aos limites da natureza, das relações da matéria presentes na estreita e extensa faixa da beira do mar do Rio Grande do Sul, Brasil. É o encontro dessas forças da vida, como devaneios poéticos, que vem iluminar as questões que se seguem.
A argumentação desse texto está entrelaçada – como um estranho casamento – pelas passagens de Negri de “Kairòs, Alma Vênus, Multitudo” e as passagens de “A Collage como trajetória amorosa”; ambas costuram-se pelos contornos das figuras, pelos encontros, pela pobreza e excessos, pelo acaso e, sobretudo, pelo amor.

É sem constrangimento que digo que esse texto também é uma redescoberta de uma única lição, também ensinada a mim, sobre o poder da criação, da eternidade da matéria, da finitude do ser, o qual se depara absolutamente só e que, perplexo, olha fixamente para uma linha do horizonte sem fim, da beira do mar – incansável em sua persistência do igual – perdendo-se na infinitude da criação.
Duas fotos dessa extensa faixa beira-mar, quase desabitada, ilustram esse ensaio. Outras imagens, agora collages, também se fazem necessárias para auxiliar o entendimento das reflexões aqui propostas, mas elas comparecem à medida que o texto clama por elas.
O que se lança aqui, e desde aqui, é a experiência referencial com o lugar que fecunda o pensamento, descobrindo um novo conceito de tempo, de lugar.
A collage, ao longo da modernidade, apresentou uma trajetória pouco observada por muitos teóricos da arte e também por filósofos. Isso, talvez, por estar exatamente onipresente em todo o pensamento da modernidade e, também, por ter sido associada equivocadamente a uma questão pictórica. Grosso modo, sua trajetória apresenta três tempos: ela sai do quadro, das artes plásticas, impregna as formas de comunicação, torna-se linguagem e, posteriormente, é elevada a categoria de pensamento.# Agora, na atualidade, assinala um novo e assustador horizonte de seus fundamentos: não mais no mundo da arte ou do pensamento, mas na ordem das organizações político-sociais, no universo da política. Enfim, o princípio collage chega ao poder.
Afora minha grande paixão pela collage, e os estudos que dediquei a ela ao longo de vários anos, devo no mínimo suspeitar dela quando ocupa esse espaço como um novo modelo estruturador da vida. Devo salientar desde o início, que Negri nunca utiliza a expressão collage em seu livro para referir-se a suas proposições. Decididamente suas reflexões estão fora do discurso conceitual da collage, mas foi justamente essa proximidade que me levou a começar a entender Negri. Corro o risco de fazer uma outra interpretação de suas palavras, talvez completamente equivocada. Mas não seriam exatamente esses limites da compreensibilidade que poderiam transbordar a cada nova leitura?

Entender Negri não é fácil, transitar pelos limites que propõe parece, às vezes, algo tão difícil como se colocar a beira do precipício, do contorno. Nesse sentido, talvez, a collage surja como possibilidade à compreensão de seu trabalho, tentando revelar a estrutura que se esconde por trás de Multitudo ou de Kairòs, de todas suas virtudes e, ao mesmo tempo, de todas as limitações das relações humanas propostas. Talvez ainda, do desconhecimento de Negr dos estranhos caminhos da collage como trajetória amorosa, como um dos limites últimos da representação nesse século.
Multitudo é o "nome comum" que Negri se utiliza para nomear, diferenciar a massa heterogênea que compõe a massa, o comum, o aparentemente homogêneo.
Sua Multitude será aqui análoga às figuras que compõem a Collage, a collage universal de corpos, dos grupos, a collage das singularidades.
Ainda que não utilize o nome ou conceito de collage para designar as novas bordas do materialismo, fica evidente que, quando se aproxima aos conceitos de amor e pobreza como sentimentos capazes de destacar a particularidade dentro do Universal, ele está, de certa forma, aproximando-se do conceito de Collage. O amor é o elemento que permite viver no singular, na singularidade, mas que pode ser elevado à categoria de Universal. Cada amor é sempre vivido de uma maneira distinta. Carlos Gurmendez em sua ‘Teoria dos Sentimentos’# observou criticamente que Hegel afirmara que o amor é o universal ontológico, mas ocultava que a particularidade se conserva intacta na universalidade do amor. O amor é sempre individual, mas universaliza a individualidade ao totalizá-la.
Negri aproxima-se também aos surrealistas, que já haviam observado e proposto o amor como a potente forma revolucionária.
Em A Collage como Trajetória Amorosa, basicamente aquilo que poderíamos designar como uma Filosofia da Collage, no capítulo dedicado aos Encontros, lancei o amor como a força da criação. A cola que gruda todas as coisas. A trajetória amorosa como o lugar e o tempo da criação. Trata-se, enfim, de uma filosofia da matéria, dos corpos-figuras, do ‘papel da representação’. A Collage como trajetória Amorosa é uma filosofia da collage que parte do próprio instrumental característico da Collage: a tesoura (o recorte ou captura), o papel (as figuras-fragmento) e a cola, para fazer sua reflexão.
Podemos observar que a problemática do tempo elaborada por Negri em Kairòs, Alma Vênus, Multitudo está próxima ao entrecruzamento do tempo, dentro do paradigma da collage. Já não é mais a flecha do tempo, com sua ponta, que assinala o nome, um tempo que já não é extrínseco e excêntrico ao corpo, mas um tempo que é a própria matéria. Um corpo que carrega seu próprio tempo. Um corpo-tempo, um tempo que não existe sem matéria viva, um instante, um Kairòs que se perpetua no eterno através de uma sucessão de Kairòs.
Na Collage, a compreensão do tempo se dá a partir das próprias figuras, da existência de cada figura, de cada imagem, de cada representação, do tempo de cada imagem fotográfica. Não há um único tempo, cada figura arrasta seu próprio tempo, formando um caleidoscópio de tempos. Na collage, não há mais um fluxo do tempo como na pintura ou no desenho. Nem precisa. O tempo na Collage é o próprio paradoxo do tempo, da simultaneidade da co-existência dos diversos tempos de cada figura, de seus corpos.
É o encontro amoroso desses diferentes tempos que assinala o novo tempo, o novo instante surgido a partir do “shock” das figuras, dos corpos no encontro amoroso, nessa colisão de tempos distintos.
Na collage, passado e presente convivem em simultaneidade. Collage é desacomodação de tempos. Na collage, o futuro é sempre a possibilidade de novas construções a partir do presente. O passado? Um Kairòs, que se dissolve eternamente no presente.
O que nos une, ou unirá não é o que se sucedeu na eternidade do tempo, mas aquilo que está por vir e não sabemos ainda. Essa simultaneidade do tempo é aparente, transitória, é sobreimpressão do tempo.
A collage é um trabalho vivo, sempre inovador sempre inacabado, um processo contínuo, recortado, reinventado. Uma construção de fragmentos de matéria, sobre os corpos, sobre a dispersão desses corpos que se multiplicam, desdobram-se, fragmentando incessantemente, tornando-se multitude, criação.
Freqüentemente, temos lido ou nos dito que a fragmentação é uma das mazelas do materialismo, mas esquecemos com freqüência, que a vida, sobre certa ótica é matéria, é materialismo, e que ela só se efetiva a partir da divisão incessante e infinita de seus corpos, de suas células, de seus desmembramentos, para continuar a criação, a novidade. A novidade é sempre a vida.
São características da criação, a divisão, a mitose, a meiose. A vida é multiplicação, fragmentação e dispersão, coincidentemente uma característica que atribuímos equivocadamente só a modernidade.
Toda a Filosofia das Ciências, toda a Física moderna jamais conseguiram lançar mão de "nomes comuns" tão precisos como os nomes propostos pela experiência da Arte e da Collage, na era moderna.
A Collage, na modernidade, conseguiu casar toda a essência do paradigma materialista da arte com o mistério da criação. O que outrora se associava ao divino ou celestial, na modernidade associou-se ao lance de dados, ao acaso, estabelecendo assim o domínio do pensamento racionalista sobre o inexplicável através do acaso como força e atividade do inconsciente, vide, por exemplo, à psicologia Freudiana e mesmo pós-freudiana.
Os que se aproximam da borda da collage estão à mercê da borda do ser, da matéria como eternidade.
Kairòs é o tempo mutante. A inquietude do tempo, não só do tempo, mas da matéria, sempre disposta a se renovar.
A inquietação do eterno paralisado a jorrar a luz sobre as águas do mar.
Na borda do tempo, do ser, nas bordas da natureza é que se dá o encontro, a descoberta dos limites e delimitações.
Justo na tênue linha que separa o mar da terra, na extensa e contínua faixa de areia molhada, nas partículas de água, sal e areia que bailam suspensas no ar, nos seres que habitam os limites que se descobrem os limites do eu. O transbordamento do ser.
Esse é o território da borda do ser, da matéria terra, da página.
É nesse contexto, onde se dá o contato e a relação amorosa entre a terra e o mar, ora ocultando-se, ora revelando-se, espelhando o céu na água. ‘Re-fletindo’.

É justamente na lambida do mar na terra, que as letras de Alma Vênus começam a fazer sentido.

Ao longo da linha do horizonte, tudo é repetição, repetição feita de pequenas variações, da particularidade de cada onda, de cada momento, de cada nota, repetindo-se, repetindo-se em constância, eternizando-se em música, delineando o contorno preciso de suas imprecisões, da precisão da terra, da precisão do mar, do céu.
Kairòs, a força de mudança, anuncia-se nas bordas, nos contornos, nas periferias, nas exclusões, nas exceções, nas mudanças bruscas dos espaços, nos limites das figuras, da matéria. Naquele ponto, onde não se consegue mais definir o que é um ou outro. Na conjugação das bordas, tudo se funde, confunde, desnorteia.
Kairòs se anuncia na indefinição, no fim do contorno, no limite último, no fim do conceito, no final de certas palavras, no fim de certas linguagens, o Kairòs está fora do texto, fora do livro.
Disfarça-se de eternidade, está em constante mutação repetitiva nos campos de ação anunciando sempre a eminência do acaso, o evento, o milagre.
É o tempo do instantâneo, o raio, o brilho. A luz que brilha do acoplamento da matéria.

A presença de Kairòs, para mim, fez-se presente nesse mesmo dia, na beira da praia, quando se fez noite e surgiu o raro espetáculo da tempestade magnética. Quando o céu, então, resolveu dançar ao som da música eletrônica humana, eletrizou-se, realizando a tempestade, a festa. As nuvens iluminadas, a multitude em festa.



Collage, é (in)definição de definições, definição contida dentro ou fora da figura.

O contorno é a definição forçada de indefinições, é conceito. Conceito é sempre contorno.

O recorte da tesoura na collage arranca não só as figuras de seu contexto, das páginas, mas também deixa um estranho vazio. É esse vazio, esse contorno delineado pela tesoura, que podemos comparar ao conceito.

Definição é um gesto que distingue entre o incluído e o excluído, o dentro e o fora do campo recortado. Definição gera exclusão. Por isso, o recorte está sempre definindo não só as figuras recortadas como também tudo o que está fora do incluído.

Recortar, definir, contornar significa também rejeição, aceitação, castração, eleição, convenção.

A fenda provocada pelo corte magnetiza as partes secionadas, dá orientação, sentido, significado, sexualidade, brilho. É sobre esse espaço aberto do recorte onde se dá a transformação do material da collage, da matéria, do tempo. É nele que os elementos passam a ser re-descobertos.

Ao recortar uma figura, definimos não só a figura, mas a própria revista que foi recortada, o contexto do qual a figura foi extraída: a revista mutilada,ainda que não exibida, na maioria das vezes.

Recortar é um compromisso com o mundo, um compromisso de abrir buracos, de mostrar não só o incluído; mas, sobretudo, o excluído.

A Multitude de Negri deveria ser compreendida como indefinição. Multitude definida por dentro através de cada figura, e simultaneamente indefinida por fora – como na collage – como disse Negri uma “multitude indefinida em sua externidade”.

Negri se refere à sua Multitude como uma constelação, um conjunto de estrelas imutáveis em sua estrutura. Collage vai além: é conceito ambivalente, constelação mutante. Collage é sentido exposto fora, despejado.

Na Collage, cada recorte arrasta não apenas a figura, o corpo, mas também o seu próprio tempo que vem junto, o seu Kairòs.

Todo recorte é um rapto.

Kairòs é o tempo do raptor.

O recorte é uma ferida, abertura radical que nunca cicatriza. E, quanto mais aberta está, quanto mais recortada está, mais o sujeito, “o eu” se descola de suas falsas representações.

Na Collage, ao mesmo tempo em que recorto, sou constantemente recortado.

Encontrei uma grande semelhança entre o conceito de Kairòs e o papel da tesoura. Na collage, Kairòs corresponderia ao ato de “recortar”. Kairòs é o instante da passagem da tesoura, o momento da criação em que se individualiza, conceitua-se temporariamente.

Kairòs é anunciação, o recorte que possibilita o ingresso do amor, a relação que se estabelecerá entre as figuras, os encontros, a multidão, a collage humana.

Kairòs – o recorte da existência – é o intervalo que se abre como revelação, como vida, sobre a desconhecida superfície que alguns chamam vazio. É o tempo dos homens, oposto ao tempo do mundo contabilizado (Chronos). Kairòs corresponde ao tempo que não se contabiliza ou se mede, o tempo que se esquece, que se entrega enquanto corpo, existência.

É na borda que se dá o amor. O revolucionário do amor, como diz Negri, só pode se dar na entrega à pobreza como sentimento, como corpo.

A pobreza é a carência, a falta de tudo, a destituição.

O revolucionário do amor, só pode se dar no recorte.

Todo encontro é uma redescoberta ou o que poderíamos chamar em termos de collage, “um recortar o próprio corpo”.

O jogo dos Encontros entre as figuras, na collage, reflete o problema do corpo com sua representação.

No ensaio “O encontro, o corpo figura” dedicado ao artista João Manta, explicava que, na collage, o ato do recortar deixa de assegurar a projeção do representante no representado desde as leis da mimese. Ou seja, em outros termos, equivalente das representações na democracia.

Toda figura recortada, enquanto criação, é transferida de um universo a outro, posta em suspensão, errância. Em sua extração, ela deixa marcas, bordas. A borda do ser é semelhante ao espelho. Toda borda torna-se espelho momentaneamente, porque a cada contato, reflete e absorve o outro.

A borda da borda só pode ser espelho, mesmo, de tão fina e salgada. Espectro, espelho d’água.

A trilha espelho, na beira da praia, podemos percorrê-la sem dobras.

A collage permite ver o que se esconde no interior das figuras corpo, graças à atividade do recorte, quando se despega e se desapropria de sua falsa pele, de sua representação. O eu sempre esconde outro, a outra figura revelando.

É como ocorre no amor, quando baixa uma espécie de desejo de investigar o corpo do outro, do meu, como se quisera ver o que tem dentro, dentro do outro. Um desejo de morar dentro, dentro do outro.

Mas no fundo não há nada, esse fundo pode estar em qualquer lugar.

Se existe uma alma das coisas, ela deve gostar de morar na superfície, na superfície da superfície, para que fiquem bem pertinho uma da outra.

A alma deve estar sempre pronta para pular, transbordar. Ela talvez nunca esteja dentro. Por isso, ela pode passar de um reino a outro, transmigrar facilmente pelo contato, pelo desvanecimento dos limites borrosos da matéria.

A borda do mar só poderia ser espelho. Reflexão.

A linha contorno do mar é espelho do céu.

O céu é o outro da água.

Esse encontro coloca-se no entrever das ondas que se faz espelho na areia, indo e vindo, nessa espécie de desvelação dos estados da matéria, na fenda do desejo da natureza.

Na fina película de água em estado amoroso, podemos encontrar a fina estampa do céu, os contornos, as bordas do ser, o tempo do ser transbordado nos limites, na inquietude do próprio tempo, na trilha de cada um, na trilha de todos sonoramente universal.

O encontro revelador se produz sob a força do acaso e este, por sua vez, só se produz na repetição, no princípio da eternidade. Nesse princípio, o fora do comum acontece.

A própria repetição de alguma forma contém o desvio, o detournement, o evento, o inusitado, o especial. É preciso provocar o inusitado, já afirmavam os surrealistas.

A isca é o que perfura o mar, tal qual faz o pescador ou o mergulho da gaivota.

É na fissura, na perfuração, mais precisamente na linha que acompanha a isca que um mundo conecta-se ao outro, uma figura a outra. Na linha de costura, na linha de pesca, na linha do desenho, na ‘rede’ que arrasta todas as coisas, os seres de um mundo ao outro.

O Kairòs, o recorte, abre buracos, fendas, descortina e coloca em evidência o uso do corpo.

Um corpo sem uso é incorporeidade, e isso é função dos falsos espelhos, dos espelhos da memória, das falsas janelas (windowns). O recorte é um pouco como Kairòs, porque vem anunciar e assinalar a falsa representação dos espelhos. As marcas provocadas pelo recorte mostram o descolamento da representação de seu próprio corpo.

O corpo, na borda do mar, é metáfora da luz, poeticamente o homem habita e se encontra em seu corpo, em suas bordas.

Então, o que espelham em suas bordas, as figuras fragmentos da collage, se são todas falsos precipícios, abismos, vertigens de uma triste trajetória humana de perpetuar-se em imagem, em representações técnicas, em poder?

Já não se pode falar de uma práxis do materialismo em Alma Venus. As lições de Negri suscitam muito mais que a questão da matéria ou de uma ação revolucionária, ou mesmo de uma rebelião. Elas já não estão no Chronos, estão nas bordas da vida, da existência. Na verdade, é o próprio Negri que se coloca nessas bordas, nesses limites últimos do materialismo. É a dimensão que faltava à compreensão de um novo tempo que se anuncia. A dimensão que faltava à compreensão do espaço. Talvez o reencontro entre Chronos e Kairós.

O tempo todo, o Tempo nunca admitiu a simultaneidade de vários outros tempos, ele reinou absoluto e único na flecha do tempo. A ciência não admite a contradição.

O tempo dos homens, de certa forma, sempre desconsiderou o corpo como porta-voz do próprio tempo, como o ente que carrega seu próprio tempo e espaço. Para a ciência, ele sempre foi um ente abstrato e distante ao próprio ser. Marcia Tiburi, em sua “A filosofia Cinza”#, tratou de demonstrar essa negação do corpo na filosofia.

“Se o corpo é o lugar da pobreza, na pobreza, a potência do corpo é exposta à desmedida.” #

Negri também transborda a questão da produção e do trabalho. Em Alma Vênus, ele constrói a poesia do tempo, das multidões, do ser. Em Alma Vênus, tudo transborda, é possível passar de um lado ao outro através do encontro, do amor.

Mas é em Multitude que Negri apresenta enunciados mais próximos à collage. Para ele, Multitude é caleidoscópio, constelações. Para mim, o caleidoscópio não deixa de ser uma espécie de collage, próximo também à idéia de mosaico.

Caleidoscópio, mosaico, collage, guardam suas diferenças.

A collage, ainda que composta de uma infinitude de peças, fragmentos, figuras, cacos, não é um mosaico homogêneo, onde cada peça participa de uma imagem comum, um conceito comum, uma história. No mosaico clássico (figurativo), todas as peças são submetidas a uma imagem pré-determinada, não têm vida própria, estão manipuladas e ordenadas, espacial e temporalmente, por um soberano, por um artista, fora do quadro, inatingível.

O caleidoscópio vai além, é uma espécie de mosaico mutante que funciona segundo a lei da aleatoriedade, do acaso, distinto da constelação, que é rígida em sua configuração e segue as leis da repetição.

Algumas collages se assemelham ao jogo do caleidoscópio, entretanto o caleidoscópio tem sua estrutura na simetria e na reduplicação, na reflexão de seus fragmentos, enquanto a collage não tem na simetria, necessariamente, sua estruturação.

Para exemplificar uma collage-mosaico, poder-se-ia tomar o exemplo da collage de Hannah Hoch, “Collage recortada com faca de bolo de cozinha”, ou mesmo de Paul Citroen, “Metropolis” onde não há uma imagem prévia a ser constituída, mas uma infinitude de pequenas e micro histórias, uma infinidade de tempos próprios – em cada uma dessas figuras – que se conjugam numa nova história, num tempo que é a simultaneidade desses vários tempos os quais se representam em espaços e figuras distintas.

A collage produz o efeito de interpenetração de dois ou mais fenômenos que ocorrem no universo. Collage é a multiplicidade simultânea de fenômenos fixados no tempo.

A collage, em certo sentido, é exatamente o oposto do mosaico, o qual se curva humilde ante os elementos que vão se colando. No mosaico, as figuras vão se colando umas as outras, em uma perfeita rede configurada num todo. A função do mosaico é transformar fragmentos de abstrações ou cores em figuras e figuratividades em abstração.

Pode-se acumular tudo. Collage é sinônimo de uma sociedade múltipla, diversificada. Acumulação, mosaico, constelação, collage são princípios que procuram definir a sociedade a partir do desejo de anonimato, a partir de uma preservação da identidade dissolvida na multidão.

A repetição, a falta de identidade, a perda da aura surgiram como reação ao gosto exagerado pelo original e pelo exclusivo, típico do século XIX..

A repetição destitui as coisas de seus significados, e devolve-as vazias ao circuito semântico. Do mesmo modo que esvazia os corpos de sentido, a repetição subordina-os a uma ordem majoritária, na qual o todo se pensa pelo próprio todo e as partes são impensadas e impensáveis por si sós.

O mundo parece sem sentido pela repetição, mas é a repetição que dá sentido, orienta. O que se opõe à eternidade não é a morte, mas a vida. Eis o paradoxo da vida, ou da eternidade. Não é a vida que faz a eternidade como força concorrente, mas sim como força contrária, oposta. Não é a sucessão de vidas que concorre para a perpetuação da eternidade, mas a morte.

Imaginem essas infinidades de fragmentos em movimento, de vidas em ação, expandindo-se e encolhendo-se, conforme as forças externas, absorvendo-se uns aos outros; carregando histórias e espaços próprios. Cada um mudando e mutando constantemente suas imagens e sentidos, simultaneamente diferenciando-se, submetendo-se ao conjunto. Isso é multitude, collage humana.

Qual o espaço que ocupa essa collage?

Arquitetura como Collage# aborda as relações temporais e espaciais das figuras, desses corpos no novo tempo composto de diferentes tempos e espaços. A simultaneidade de espaços e tempos lado a lado, uns sobre outros, as sobreimpressões dos tempos, dos espaços, as peculiaridades de um espaço dentro do outro, de um tempo dentro do outro, de toda a lógica fora da lógica, do tempo abstrato, excêntrico a figura foram abordados desde a lógica da trajetória amorosa, envolvendo a errância, a espera, os encontros.

Esses conceitos sobre o tempo e o espaço escaparam à maioria do pensamento da doxa arquitetônica, da estética e da filosofia vigente ao final dos anos 80; também dos conceitos da moda que alguns arquitetos formalistas desfamiliarizados com o tema tentaram levar para o contexto teórico, como Colin Rowe e sua Collage City ao levar para a cidade.

A essência da cidade é receber, esperar, hospitalar. Ela é atraente, sedutora pela necessidade. Quanto mais recebe, retem, mais potente fica. Aglutinar, mais e mais, através dos fenômenos da dispersão e da fragmentação.

A collage não é operada pela produção de um indivíduo, de um artista soberano, de alguém que determina o que será, o feito. Nela, a formação do próprio tempo e espaço não está em poder de quem opera as figuras, mas sim nas próprias figuras.

“Elas me operam”, elas operam quem as opera.

O autor é subserviente das imagens, das figuras de seus desejos. Para o pensamento demiúrgico isso é uma impossibilidade. Como algo poderia pensar por mim? Como posso pensar que sou pensado? Isso é o que acontece quando alguém se afasta da razão lógica do pensamento e entra na órbita da collage, da alteridade.

Na collage, as figuras me pensam. Sou pensado.

Tanto na collage como em Multitudo, o projeto, o envio deixa de ser aquele que percorria uma linearidade do tempo, de uma certa previsão que deveria acontecer ao longo da passagem do tempo ou de algo definitivo. No conceito de multitude, na produção da multidão, o planejamento é quase instantâneo, transita por uma pequena faixa de tempo, está à mercê do evento, do acontecimento, similar à collage que se dá ao acaso e sempre com a disponibilidade de mudar a cada momento, de sofrer desvios violentos, muitas vezes não guardando mais sequer uma relação com a idéia original e ou com os objetivos iniciais; exatamente pelas intercambialidades drásticas das figuras e de seus acoplamentos.

E como ele é quase instantâneo quase deixa de ter razão de existir.

Como observou Negri: "A genealogia da potência produtiva é um entrelaçamento livre, assim como o desenvolvimento da teleologia do comum, pois não tem princípio nem fim, é eterna, porque não conhece o comando, mas só o seu próprio telos livre, seguindo a flecha do tempo que ela própria lança a todo o momento, para construir novo ser."#

"A geração da multidão inova o eterno. A geração deriva da multidão, o valor produzido por essa multidão é desmedida, ou seja, é projetada para além da borda do ser.” #

A formação das figuras, das constelações, “o modo como as constelações produtivas se entrelaçam é um problema que não se apresenta depois, mas junto com o problema da formação das constelações." # Tal como a collage, a formação das constelações se dá mediante os entrelaçamento das figuras. Ou seja, cada figura, na collage, sempre suscita outra, seu espaço de ocupação não é determinado por ela, mas pelas outras.

"A genealogia complexa das seqüências de cooperação é, na verdade, um entrelaçamento de singularidades e de multidões. É uma babel de linguagens que se tornou produtiva." #

Collage é babel de linguagens, articulações de linguagens encontradas, como disse Sergio Lima.#

Collage é cooperação entre figuras. É amor que cola as singularidades, as simultaneidades, o nome comum.



Negri coloca-se metaforicamente no espaço do celestial noturno. Mas essas constelações, para melhor entender Negri, devem ser vistas como constelações dinâmicas, mutantes noite a noite.

"Tudo corre, e tudo se hibridiza, sobre a borda do tempo. Diante do vazio, por toda parte, as singularidades assaltam o limite, para construir, comumente, um outro pleno de vida. Nisso consiste a produção não biopolítica da multidão, que se distende do cheio ao vazio, para enchê-lo novamente." #

Collage não suporta espaços vazios.

Collage é encostar solidões. Incluir o um no outro.

"É aquilo que na economia moderna se chamava exploração será definido no pós-moderno, pelo bloqueio à possibilidade do pobre de ultrapassar, na desmedida, o limite do ser. Exploração é deflação; exploração é bloqueio e mediação da potência biopolítica aberta para o porvir" #.





Quando deparei por mim, vi que meu “Kairòs, alma Vênus, multitudo” estava cheio de areia, não só nas fendas das páginas, mas nas fissuras das palavras, cheio da maresia, salgado pelo vento. Estava marcado pelo tempo que ali permaneci lendo na borda do tempo, as bordas do mundo.

Quais seres e coisas habitam essas bordas? Gaivotas, conchas, tartarugas mortas, baleias mortas, barcos encalhados, cordas de pesca que adentram ao mar, pescadores, pássaros de todo tipo, mariscos, taturanas, corruptos, siris, garrafas pet, chinelos, garrafas de vidro, caixas de isopor e toda sorte de pequenos vestígios dos humanos.

No território das bordas, o homem construiu faróis para orientar-se na travessia.

Falo luminoso atestando que as bordas da matéria não têm contornos definidos.

O contorno é aquele espaço, aquele tempo em que não se está nem dentro, nem fora, se está dentro e fora ao mesmo tempo, não se está aqui e nem ali, é por isso, também, que quem está sobre os contornos, sobre as bordas, se desorienta, e quanto maior a indefinição das bordas, maior é essa desorientação.#

No universo collage, o encontro corresponde ao evento. A decisão é o evento, a escolha. O encontro, antecipadamente, já é a decisão.

A primeira decisão na collage é anunciada pelo recorte, por Kairós, pelo nascimento do corpo, já a segunda é efetivada pelo encontro com o outro, pela centelha do encontro, por Vênus.



Para Negri: “A decisão é o produto do cruzamento dos corpos da multidão; é o clique dinâmico de toda produção inovadora da multidão”.# Exatamente como na collage, frente à variedade de figuras, a decisão do encontro e das relações se dá entre as figuras, entre, por assim dizer, seu secreto poder de sedução. Quem decide são as figuras.

Em Negri, “a decisão é o biopolítico que exprime sua atividade, precipitando-se sobre a borda comum do ser.” #

Na collage, essa biopolítica é travestida pela lógica da sedução da representação das figuras, e ela será ainda impotente para expressar essa biopolítica, pois é causa de infelicidade.

Vejamos algumas aproximações possíveis, como comentei em “A collage como trajetória amorosa”. A força que move as figuras na collage, a atração, já não é a da beleza clássica, ou moderna. Na verdade, na collage, a atração está em função de um envolvimento amoroso, embora isso não esteja necessariamente atrelado à beleza. O exemplo típico e conhecido para quem faz collage é que as figuras esteticamente perfeitas, as fotografias belas geralmente custam a se acoplar as outras, ficam muito tempo errando, aguardando na pasta de figuras, enquanto que as figuras menos belas, normalmente, acasalam-se mais facilmente. Na collage, a força que move as figuras está próxima ao conceito de junção, cara metade, de estranhamento, de similar no dissimilar.

Quero dizer com isso que ‘há’ na superfície uma questão de alteridade, que deve haver uma capacidade de abertura de comunicação de cada figura, de cada grupo, para o outro que compõe o gigantesco mosaico. Dir-se-ia da capacidade de receber o outro, de hospedar, tal como a figura da espera na collage.

“Decisão política é sempre, e somente, decisão da multidão.” #

Mas essa decisão da multidão pode levar também a uma de-cisão.

“Quando se fala em decisão do príncipe (e aqui poderia enxertar com toda tranqüilidade o papel do artista, do pintor, do arquiteto), ou nada se está dizendo, ou se está dizendo que todo processo do fazer da multidão se concentra num ponto do ser – como uma torrente que encontra um dique que decide a seu respeito. E é só nesse caso que se fala corretamente da decisão, porque a borda do ser, e não o príncipe (ou o artista ou arquiteto) é quem decide” #

“A grande ênfase política sobre o decidir sobre a exceção não tem sentido porque sempre em todo instante, as singularidades decidem sobre a exceção. Que exceção pode ser mais significativa do que a inovação do eterno?” #

O Kairós parece ser essa estranha força que surge das próprias figuras e que remete a uma ‘exclusão-inclusão’ velada do autor.

Tal como na collage, o artista não decide quase nada, ele é apenas um agente de concretização, de colagem, operando no simbólico, embora a decisão final de colar ou não, sempre seja dele.

Assim, “O que torna a multidão capaz de transavaliação e de decisão é o encontro dos corpos que entram em tensão cooperativa sobre a borda do ser. Todavia, essa é apenas uma consideração formal da transavaliação do ser. Mas o que faz com que esse encontro configure, materialmente, um sentido ontológico, que não seja apenas projeção ou repetição da experimentação de uma existência insensata no mundo?” #. De um automatismo?

Isso é exatamente o que a collage como trajetória amorosa tenta mostrar, e que Negri se servira do conceito de Alma Vênus, do amor para demonstrar a potência revolucionária do eterno.

O eterno é amor.

O encontro dos corpos faz da linguagem um contexto biopolítico. Também mostramos que a linguagem ganha sentido, no momento em que participa da teleologia do comum – isto é, quando o comum a inova.”#

A Collage é o lugar dos encontros das figuras que vagam no mar das imagens. É ela que provoca a riqueza dos encontros, casuais ou intencionais, que transbordam as leis da lingüística ou de qualquer retórica. A lingüística e/ou a semiótica acrescentam muito pouco a esse tema, quando se pretende compreender sobre como se dão os encontros. A maioria das investigações sobre a Collage insiste em explicá-la sob as leis da semiótica, definindo com freqüência sobre o casamento do recortar/colar. E é justamente quando a lingüística, ou mesmo a filosofia, não conseguem explicar mais que a si mesmas, que o corpo entra em ação, para dizer o interdito, o entredito Como disse Sergio Lima “toda linguagem é uma reunião onde pode haver encontros… Toda linguagem encontrada é uma collage”.#

A fenomenologia dos Encontros parece desvelar toda uma série de encontros obscurecidos pela conjugação retórica do cortar-colar. O encontro, a aproximação como observara Breton “é o movimento dos sentidos, dos significados, que produz a troca de energia que se libera pela união dos distantes, dos diferentes”

É da aproximação de algum modo fortuita dessas distâncias de sentido aproximadas que brota a luz. É por isso que a borda da borda é pura luz, espelho, reflexão, iluminação.

“É o Encontro e seu espaço mágico que permite a Collage evidenciar o desejo como algo que a constitui. Equivale a dizer, como expressou Sergio Lima, a uma mecânica de articulação de imagens que são reconjugadas. É por sua própria dinâmica um descobrimento intimo (desvelação, recorte) onde o fluir da criação acaba por criar novas imagens”.#

Isto é trabalho produtivo.

Poderíamos ir além, e nomear o “Encontro” como a relação recíproca que envolve vários corpos e objetos e/ou o próprio ser frente a suas representações, frente ao outro.

Normalmente, todos os intentos lingüísticos de explicar a collage em termos de linguagem mostraram-se impotentes, porque não conseguiram explicar o que acontecia no intervalo entre cortar e colar. Justamente o Encontro, a mágica da criação permaneceu como uma Caixa preta para todos os que tentaram explicar a lógica da collage pelos processos da linguagem. Os surrealistas, entretanto, já haviam percebido que a força de criação vinha do amor, o amor não é apenas a metáfora da criação, mas sim o próprio ato, o sentimento, o lugar que produz criação, produção, “gera-ação”

Para os surrealistas, o amor é o revolucionário. O revolucionário é sempre o amoroso.

O ‘encontrar-se’ caracteriza o estado aberto, a pré-disposição à chegada do outro, e de todas as figuras da collage. O Encontro constituído das multidões caracteriza o Estado aberto, devassado, derrubado.

É justamente a metáfora dos encontros que tem por função conectar espaços, tempos e culturas completamente distintas, a variedade das multidões.

Não existe collage-multitudo com fragmentos isolados, fechados. Collage pressupõe envolvimento, contato, ainda que virtual, telecomunicacional. A multidão conectada por fios será algo mais próximo à geografia do arquipélago ou da constelação. Para o estabelecimento de uma relação produtiva, é necessário percorrer grandes distâncias para contatar os corpos físicos. Algo muito similar ao encontrar-se virtualmente#.

A collage como lugar dos Encontros convida as figuras a narrarem outras histórias, distintas daquelas a que foram destinadas inicialmente, ou que representavam inicialmente.

Os Encontros se conjugam quase sempre em termos topológicos divergentes, distintos, onde a visão do outro, a minha e a dos demais coexistem numa multiplicidade de referentes perceptivos espaço-temporais.

O Encontro é puro espaço de dois ou mais corpos no mesmo espaço..

Tal atividade criadora funda os vínculos que anulam, temporariamente, todo o distanciamento estabelecido pela sociedade das especialidades, da fragmentação. Por isso, a collage se manifesta na Festa, na collage dos corpos. Na celebração, tudo está congregado. A celebração tem modos de representação determinados. Não se trata somente de estar um junto ao outro, mas sim de uma intenção que une a todos e os impede de desintegrar-se em diálogos soltos, dispersos, ou vivências individuais.

Tanto na collage como em multitudo, devemos observar a distinção entre a festa-celebração e a simples reunião da multidão. As figuras, que participam dessa espécie de mosaico-festa ou de um trabalho vivo, estão todas em contato direto, não mais atadas ou conectadas por fios – como nas collages de Moholy-Nagi, mas sim, cada figura fragmento está colada ao lado e/ou dentro da outra ou das demais, formando uma nova e singular imagem, como no caso da collage de Paul Citroen, Metropolis, onde se percebe a representação de cidade imaginária conformada a partir de diferentes pontos de vista e de diferentes tempos; ou mesmo nas Inimages de Jiri Kolar.

A Collage questiona o mundo através da “superficialidade” de suas imagens e formas, de suas superfícies, sem nunca oferecer uma resposta ou um sentido duradouro. Constitui-se, como um Desvio da representação, um dos limites da representação. Talvez, por isso que “Envios” de Derrida pode ser interpretado como uma aproximação à collage como forma de deconstrução das representações.#

Como observou Negri, “somente quando a teleologia do comum é investida pelo amor, o sentido do comum escapa da tautologia pós-moderna. E o contexto biopolítico se torna, então, uma potência construtiva que inova o eterno. Aqui, a multidão é capaz de inovação”#.

A fusão erótica que a Collage proporciona questiona os corpos e os entreabre a um lugar até então desconhecido, o da revelação amorosa, o do descobrimento, o espaço do outro. Os outros.

A desmedida é a indefinição do campo. A inovação é o desconhecido. O outro é esse eterno desconhecido.

Como disse Roland Barthes, “o encontro amoroso é a perda do significado de cada um, a renúncia de cada um, querendo transportar-se para outra figura”.# para a figura do outro.

O amor arrasta o ser à sua consciência. Ainda que se confunda com loucura, ou doença como atestam alguns. É uma das maiores forças de clarividência ao denunciar a debilidade da vontade, a submissão do eu ao outro. O amor, curiosamente, opera pela cegueira. O amor não quer saber. Não quer outro saber, além de seu próprio saber.

Para Negri, “O amor, não é pietás (ou seja, uma potência que aspira à transcendência), nem simplesmente amor (ou seja, potência ascética que se move num contexto atomístico, percorrendo-o de modo não definitivo), mas trabalho vivo biopolítico. O trabalho se torna vivo, expondo-se à desmedida, e é o amor que o sustenta nesse empreendimento comum e construção (no vazio) de ser.”#

“A segunda dimensão fundamental da experiencia do mundo é o espaço, por isso, o amor deve ser a constituição espacial do mundo. “ #

“A libertação do ‘trabalho vivo’ constitui a utopia de todos os movimentos dos pobres. Trabalho vivo quer dizer, simplesmente, potência de criar, ser onde só há vazio.” #

Inovar.

Mas o que é este estreitíssimo parentesco entre trabalho vivo e amor senão o “Telos do comum, impelido pelo amor, o trabalho vivo de uma multiplicidade de singularidades em tensão entre si.” #

“Vimos que os corpos singulares que exprimem trabalho vivo, ao produzir, estão em tensão entre si. Cada um deles, na verdade, experimenta-se sobre a borda do ser do outro. Isso é: um pouco do outro. Se os corpos não se movessem sobre essa borda, não poderiam nunca estar em tensão, mas seriam eternamente imóveis. Mas também vimos como o trabalho vivo dos corpos se apresenta por meio de uma produção comum, quando se torna trabalho lingüístico, de modo que a multidão é recomposta na inovação. Vivemos, portanto, um duplo movimento que vai da multidão à singularidade em tensão, e da constelação de singularidades à comunidade lingüística” #.

Ao invés de trabalho lingüístico, prefiro utilizar a expressão comunicação, comunicação direta com o corpo, o contato, a colação, o envolvimento direto de um corpo com o outro, impulsionando a solidariedade, e a convivência no cotidiano com os desiguais.

“O ser biopolítico é a matéria da teleologia do comum, pobreza e amor são seus elementos-chave. Mas são pobreza e amor que abrem para a desmedida do tempo por vir. Por isso, a teleologia do comum é exposta a essa desmedida.” #

Collage é desmedida, vive de restos e de amor. Recolhe o abandonado, ocupa, habita, insufla de amor.

Desmedida e excesso.

Desmedida é o que ultrapassa, transborda a borda do ser, a linha, o contorno. Como as collages, as figuras mal recortadas que transbordam as linhas das definições, dos conceitos, das figuras. Tanto por seu excesso, como por sua falta, como carência. Desmedida implica também em transfiguração, deformação do convencionado, do definido, geração de indefinição, geração da multitude. Desmedida é estar já do outro lado, do lado do outro. Desmedida, em certa medida, pode ser o abandono do EU.

Como se formam e se entrecruzam as constelações produtivas de subjetividade? Essa formação, para Negri, se entrecruza com o tema da geração do eterno, ou seja, de sua inovação.

A multidão gera ação, geração. A multidão é geração, matéria em ação, matéria em formação do próprio tempo. É a geração da multidão que inova o eterno através das gerações que se sucedem. É a multidão que inova o eterno por si como existência, como matéria mesmo.

“A multidão é um conjunto de constelações produtivas de subjetividade.” #

Multidão ou collage é conjunto de figuras em ação, em movimento. A produção, em termos de Negri, está na possibilidade da abertura de cada figura e de seu desdobramento enquanto possibilidade quase infinita de combinações organizacionais.

Quanto mais aberta mais propicia ao encontro.

A cooperação se forma a partir do entrelaçamento de desejos, enquanto necessidades, das singularidades e das multidões.

A cooperação.

Mas essa produção, na democracia, é intermediada pelas representações e por seu espaço como categoria, que se desloca para o centro, de centralidade. Essa representação da produção, antes mesmo de se dar entre os corpos, antes de aplicá-la sobre os corpos, já de certa forma, havia se pressagiado na representação pictórica.#

A produção “Na pós-modernidade é uma babel de linguagens que se tornou produtiva, é a física primordial na qual porvir se instaura.” #

A collage é a arte de organizar essa babel de linguagens, mas segundo outra ótica de organização. É a força produtiva “organizada” que seria impossível dentro de uma economia clássica, ou moderna. A Collage consegue gerar energia, trabalhos produtivos, a partir das diferenças, das contradições que se encostam, se aproximam.

Agora, ela se apresenta como alternativa para a organização social política, pois consegue realizar trabalho produtivo, mesmo com o ‘in-comum’, mantendo inalteradas as diferenças. E ainda sem ter uma centralidade.

É exatamente essa geração mosaico que vem transbordar e gerar, uma vez mais, o eterno em sua materialidade.

A collage é desmedida à medida que é excesso, constitui-se de sobras, de restos, daquilo que não serve mais, do deixado, do encontrado. É excesso porque é festa, extravagância, “lugar dos encontros” das imagens, como disse Sergio Lima.

Sua lógica, assim como a lógica das constelações, é a lógica absurda da desmedida do inquantificável, porque não é baseada na lógica da ordem e da medida, da linha e/ou do ponto, do desenho, do conceito, mas sim na lógica dos encontros.

No entanto, no desenho também existe uma desmedida. A desmedida no desenho, por outro lado, é a desmedida das linhas, dos contornos, da espessura do traço, do arbítrio da definição da linha através da representação, aquilo que Leonardo da Vinci, utilizando o contrário, procurava demonstrar com o sfumatto, a indefinição da própria linha, a imprecisão que reina em toda natureza, talvez a mesma vaporoseidade da eternidade que os impressionistas buscavam ao negar a linha e buscar seu momento último: o ponto.

Na collage, as figuras de papel são entidades de dois lados: verso e reverso. Na collage, a desmedida das figuras – através do próprio material, papel – acaba por arrastar junto o outro, ou seja: a imagem outra do verso da folha. Na collage, tudo se desdobra.

Na desmedida estão esses outros.

A inclusão do outro é sempre desmedida. O outro é aquele que vem me transbordar, é aquele que me permite passar de um lugar ao outro, sair de mim e ir para ele. A mudança.

Desmedida para mim, é aquilo que não posso entender, foge de minha lógica, aquilo justamente que vem ao meu encontro e propicia a geração nova de energia, produção, vida, a inovação. Aquilo que se cria ou se gera pela aleatoriedade da conjunção das figuras. Não há um plano ou um projeto, já que na collage ou na multidão tudo pode sofrer um desvio a cada momento.

Na collage, a desmedida de um é a inclusão de outro. No excesso do eu já está o outro.

A geração de energia se dá através do ingresso do ilógico, da des-razão, dos outros.

O Eu, na collage, só existe enquanto outro, outras alteridades. Nesse sentido, ela é reveladora da existência suprema das constelações, das cooperações, dos coletivos, pois aquele ‘eu’, também, já não existe mais.

O problema que se coloca é que depois das várias mortes de Deus, a partir do século XVIII, e depois da morte e do fracasso do homem, na pós-modernidade, prenuncia-se a perda do próprio ‘eu’ que se precipita no abismo do sem-sentido.

Esse sem sentido, por sorte, só poderá resgatar seu sentido na figura do outro, numa filosofia da alteridade. Esse outro, esse eterno desconhecido.

Claro é que, a lógica da collage não é mais a do poder instituído, de qualquer espécie, não é mais do artista criador, demiúrgico. Na collage, estamos numa operação em que nada faz sentido, ou seja, que o sentido só é obtido através das maravilhosas conjunções dos outros e com os outros.

Devemos entender, e aceitar, que o acaso exerceu na modernidade, o antigo papel atribuído a Deus, ao milagroso, ao furor divino, ao inexplicável explicável. De certa forma, o acaso se manifesta como figura absoluta da organização, da produção e da vida em multitudo e também na collage.

A collage é milagre.

O acaso é análogo à manifestação divina, ele não explica, remete sua justificativa a uma ordem inexplicável, fora da lógica humana e da razão.

Talvez seja por isso que Negri escreve Alma Vênus ‘por acaso’. E não é por acaso que a primeira frase do livro em sua apresentação diz “esse texto nasceu por acaso”.

Como dizia Michel Carrouges ‘é preciso provocar, chamar o acaso o tempo inteiro’, e as iscas são uma boa estratégia para o aparecimento do acaso, do divino.

O drama da collage, do materialismo que escapar do materialismo de alguma foma, será, pois, explicar e enfrentar o acaso, o último reduto do materialismo.

Desmedida é carência, castração. Desmedida, na collage, é também a redução da figura por pressão, a figura recortada imprecisamente, o corte já dentro, a amputação das partes, o contorno comido, devorado pela força da repressão, como nas collages das figuras humanas de Hannah Hoch.

“A genealogia da potência produtiva é um entrelaçamento livre, assim como o desenvolvimento da teleogia do comum, pois não tem princípio nem fim, é eterna, porque não conhece o comando, mas só seu próprio telos livre, seguindo a flecha do tempo que ela própria lança, a todo o momento para constituir novo ser.”#

A potência produtiva, então, é deriva, mas essa deriva como sabemos sempre é de alguma forma condicionada nem que seja pelo sabor do vento.

“A cooperação é constelação de diferenças na multidão, é aquele clinamen que organiza produtivamente o caos da multidão das singularidades.” #

Mas o que é essa produtividade para Negri? O que é essa produtividade, esse produtivismo que condenamos?

Que economia se forma nesses encontros? Qual o significado que pode transbordar além do amor vivido por suas figuras que maravilham os que estão de fora? Que espécie de produtividade interessa, ou deveria interessar no comum, fora da libertação do trabalho morto, só restando o trabalho vivo, descompromissado, o amor livre das figuras que garantem a ordem em constante dinamicidade, e inclusive o desaparecimento do próprio trabalho?

O problema que esse ‘livre’ que Negri coloca nunca é tão livre, ele é quase todo cerceado, colocado, fixado, colado, tendendo a imobilização, produzindo muitas vezes trabalho inerte, desencontro. O trabalho vivo depende da força do Eros, do movimento da errância, enfim do movimento. Mas o Eros é uma entidade que opera com o estático e o dinâmico, com a espera e com a errância.

“Uma constelação produtiva (outros chamam dispositivo, ou agenciamentos) se forma onde as potências-diferença da multidão (Breton falava da diferença de potencial) começam a cooperar, criando nova potência. A constelação é mais produtiva do que a soma das produtividades que nela cooperam.

Obviamente que no universo da collage não há somatória, calculabilidade. É por isso que as singularidades procuram a cooperação, e as multidões singulares formam a constelação, pois, assim, podem produzir mais, melhor, podem ultrapassar continuamente a medida singular de produtividade, abrir-se cada vez mais à desmedida”. #.

Quanto mais distintas sejam essas singularidades quando agrupadas, deveriam –segundo a lei de criação da collage – produzir um maior potencial energético que se abriria para a desmedida.

“Mas essa determinação quantitativa não deve nos enganar: as constelações se formam quando, sobre a borda do ser, as singularidades se interrogam sobre como antecipar produtivamente seu trabalho. Essa interrogação é sustentada por pobreza e amor. A interrogação vem da pobreza, o amor sempre é interrogativo, o outro é interrogativo?”.#

A singularidade em termos de collage é a figura, a figura-corpo. Cooperação é o potencial, e pode ser também interpretada como o potencial de cada figura a espera da outra. A expectativa: a espera. O encontro ainda não fixado. Asfixiado como produção, trabalho morto.

A cooperação é uma potência.

Mas como fica essa cooperação quando não consegue aquilo que esperava, porque na collage nunca vem o esperado, mas sim o inesperado.

“Na modernidade, explica Negri, a cooperação produtiva era imposta através da apropriação capitalista, e/ou estatal, dos meios de produção. No pós-moderno, a cooperação produtiva é imposta pela hegemonia da intelectualidade massificada” #. “É aquilo que na economia moderna chamava-se exploração, será definido no pós-moderno, pelo bloqueio à possibilidade do pobre de ultrapassar, na desmedida o limite do ser.”#

Entretanto, essa cooperação na sociedade pós-moderna é uma cooperação de afinidades onde não há espaço para a diferença ou para o impensado.

O poder, a princípio, é definição, é contorno convencionado, utiliza-se da lei e do mapa, de suas marcações arbitrárias para constituir-se enquanto tal. O território onde ele se exerce é sempre contornável, assinalável, é campo definido.

O poder constituinte-constituído só se dá a partir do estabelecimento espacial, da precisão de suas marcas, de suas linhas convencionadas, de suas leis e alíneas, de suas formas de escrita.

A collage é antilinguagem, sem linha, é antirepresentacional, é desalinhada, ou seja, trabalha mediante desvios de significados, desmistificando tudo por onde passa.

A tesoura descontrolada, por onde passa, destrói todas as definições estabelecidas das representações. Essa ação do recorte é então realçada quando o recorte é feito à mão. Desmedido, desregrado.

Collage é desvio. O desvio não passa de uma collage, assim como o detournement dos situacionistas, ou os ‘Envios’ de Derrida: forma última representacional, antes do fim da representação, antes de sua devolução ao corpo, ou de seu aniquilamento.

A collage não tem definição, nem deve ter. É sempre indefinição, é o “provisório definitivo”, tanto em sua forma organizacional espacial, como temporal. Em sua forma, não há um pressuposto de um fim organizado, de uma combinação definitiva como o ecletismo, ou o laissez-faire do liberalismo econômico.

Aquele que faz collage sabe, principalmente, que a qualquer momento as imagens podem ser dispostas de uma outra forma, podem ser trocadas, intermediadas ou simplesmente desvanecerem. Ela é sempre um ‘estar sendo’ construtivo em constante formação, ‘constituindo-se’. Diferentemente da constelação, ela existe sem uma formação prévia. A pré-figuração é inerente à constelação. O conceito de collage é mais dinâmico, mais veloz que o de constelação. Collage é des-figuração.

Para Negri, “O formar-se e o entrelaçar-se das constelações produtivas são manifestações do poder constituinte. No pós-moderno, na verdade, o poder constituinte não pode conhecer a oposição instituinte-instituído, porque ele está em uma direção que impele o comum a se constituir contra o vazio, sobre a borda do tempo. E, por estar sempre presente, em sua exposição ao eterno, o poder constituinte nega que algo possa ser, simplesmente, aceito como constituído.” #



O eterno deslumbra-se no encontro do mar com o céu, com a terra, os contornos da criação da matéria, nos desejos da natura.

A collage, ao contrário da constelação, não trabalha com estrelas, mapas. Nas bordas do tempo, há poucos faróis, pequenos sinais, avisos da vagueidade dos contornos em seu território.

Ou seja, a potência das imagens, dos afetos, na collage vem de sua impotência enquanto figuras solitárias, abandonadas, restos, fragmentos. Elas sempre estão em relação umas com as outras, mas nem sempre juntas – seu brilho advém de uma impotência que já não é da imagem singular egocêntrica. sua potência vem do outro, collage portanto é pura alteridade.

Sua potência vem também de uma vulgarização, de uma reprodução que a desqualifica como singular, como imagem, como aura. A Potência essa, como anunciava Benjamin, só se manifestará enquanto potência de massa, de reprodução.

A cooperação lingüística traduz a cooperação do exterior ao interior da organização social do trabalho. O de fora, o exterior, transforma o interior em outra coisa, isto é, anula o “fora” e transavalia a cooperação, ou seja, torna-a cooperação absoluta, uma potência. Transformá-la em outra coisa, transformar o que espera, é literalmente mudar o significado através do outro, do errante, do que chega e absorvê-lo dentro da espera, hospedá-lo incondicionalmente, igualar o de fora e o de dentro, ainda que, conservando seus princípios de singularidade. Transavaliar a cooperação significa encontrar-se, viver o potencial de cada figura, uma espécie de anulação consentida, uma em detrimento da outra, as duas em detrimento do comum, de um comum que já não é de um nem do outro, mas de um lugar comum nem fora nem dentro.

“O valor produzido pela multidão é desmedida. Ou seja, é a potência da multidão projetada para além da borda do ser.” #

O valor produzido pela multidão é desmedida, e está desmedida – desde a ótica da collage – é, na maioria das vezes, algo não prenunciável, pronunciável.

Desmedida, em termos de representação, também pode ser o que está fora do campo da representação, o irrepresentável, o proibido, o excluído do campo, fora do previsível, do conhecido. Collage é potência de representação projetada para além das bordas das figuras, porque todas as imagens são transbordadas de um universo a outro, fora de toda previsibilidade.

Cooperação lingüística, termo empregado por Negri, pode ser visto também como o apoio de significado que uma figura pode proporcionar a outra. As figuras na collage têm linguagens diferentes. Geram um sentido comum através de línguas e linguagens distintas. Cooperação lingüística não significa necessariamente falar a mesma língua.

Decisão é igual à transavaliação que, por sua vez, nada mais é que a possibilidade do Encontro. O encontro com o outro é a potência. A potência só pode brotar do encontro com o outro.

Como enunciou André Breton: A aproximação/reaproximação é o movimento que em nível pré-natal dos sentidos produz a troca de energia, a qual provoca uma diferença de potencial, e é dela que nasce a imagem. É da aproximação de algum modo fortuita das coisas, dos termos donde brota a luz particular.



À distância, podemos observar alguns estágios na trajetória da collage, enquanto princípio de criação. Uma trajetória que assinala um processo de disseminação explicativa não só do mundo: “O mundo é uma collage, como afirmou Nils Oil -Lund” # mas também que se coloca como presença viva no conceito de biopolítico. Entranha-se como estrutura social produtiva, duvidosa, temerosa, perigosa.

Inicialmente, a collage anunciou a arte matérica, como observou o filosofo Marchan Fiz#, ela, enfim, é a representação da própria arte matérica em sua essência, do materialismo. Ela própria, ao denunciar o mundo material, acentuou o materialismo. Isso se pode observar em seus inícios com os papiers-colles de Picasso, Braque e Gris, produzidos nos anos de 1910-14, que colocaram em cheque a representação ilusionística clássica, o conceito de profundidade, de mimesis, sem, entretanto, abordar o tema da centralidade.

Num segundo momento, a partir dos anos 30, pode-se observar o deslocamento da collage com o surrealismo e com a psicologia de Freud. A collage seria o melhor veículo para explicar o funcionamento do mundo dos sonhos, o inconsciente, e a chave desse enigma se encontraria nas collagens de Max Ernst. O universo das máquinas do início do século (o princípio da montagem) e a collage se entranhariam em todos os campos da arte, e digamos de um modo geral, no universo das representações, dos significados, na gramática, na geometria das formas, em todo processo de criação ligados à arte, na produção do mundo moderno.

Num terceiro momento, que está aí e que não cessa sua anunciação, a collage transborda o universo da arte, excede o campo da linguagem, do inconsciente, da representação das artes, excede o conceito industrial produtivo e se despeja sobre o ser, entrando em seu interior, em sua vida, como se fosse um enxerto, um Aliens, fazendo-se vida, fazendo-se mundo organizável, segundo sua lógica. Quando se inocula no político, a collage arrasta para dentro do corpo político tudo o que era antes considerado arte, e agora deixando de ser, ao se tornar biopolítico, a collage faz desaparecer do mundo sua arte. Agora, os corpos vivos se tornarão de certa forma figuras, só imagens. É isso que faz a era representacional: transformar seres em figuras, vidas em imagens, afetos em representações. Eis os precipícios da collage.

A arte da collage finalmente passa a ser viva ao se introduzir no biopolitico, a arte trabalhando com a existência, a existência como a arte de viver. A arte como a arte da vida, dos encontros das figuras collages. É mais ou menos isso que Negri talvez imagine ao contemplar as constelações mundo.

A collage se transforma em modo de vida, em modo de vida e produção comum. Esse pensamento da collage coloca abaixo também as muralhas do espaço-tempo moderno, instaurando uma nova ordem política ainda não imaginada, inesperada e indefinida tal como a collage, diariamente dinâmica, mutante e estacionária. Cooperativa.

O biopolítico acaba, agora, por incorporar o principio collage em sua estrutura. Admitindo a contradição, o ilógico, a desordem como formas organizacionais perfeitamente aceitáveis. A Collage é a arte da tolerância, da acomodação e sobretudo da desacomodação.

Para a collage, e para pensadores como Negri, Balandier, Derrida, entre outros, a desordem é a nova ordem. No entanto, essa aparente desordem nada mais é que a trajetória amorosa dos corpos, dos grupos, das constelações em busca de uma nova ordem. A alma Venus, a estrela que cria e norteia.

A pobreza?

A última resultante da poética. A figura nua.

A pobreza é o primeiro, e último estado do ser. Também o estado último da falta de amor. A solidão, o isolamento, oabandono, os corpos fragmentos, os cacos, as sobras, tudo que é atirado fora, é disso que se alimenta, fundamentalmente, a collage. Quanto mais esfacelado o mundo, melhor.

Todo mundo nasce e morre em sua pobreza, em seu corpo absoluto, em seus amores e em suas faltas.

Para a collage, o que está em jogo não é mais o resultado das forças produtivas, o econômico, o capital, o resultado dos acoplamentos – pois este é irrelevante enquanto produto, só tem seu valor no potencial de continuidade – mas sim na capacidade do amor enquanto gerador de potencial.

É essa espécie de “amorosamento” entre figuras, entre corpos, entre comuns diferentes, entre diferentes comuns que forma a imensa collage que permeia e invade todos, com um sentimento inovador, criador.

O resultado das forças produtivas não deveria ser mais quantificável economicamente, matematicamente representável, não mais medido em bens de consumo, em propriedade, mas em afeições que possam produzir. Desmedida que se coloca no espaço do outro.

Collage é encontro de “imagem –afeto”.

Quando falo em amor, não posso deixar de pensar no amor moderno, casual, no acaso. Moderno, líquido, usando uma expressão de Baumann#. Negri fala no amor como fim, sem, entretanto, explicar e ressaltar suas fraquezas e debilidades. O amor não é nenhuma redenção, é apenas uma outra lógica, também limitada que rege a organização dos corpos, a ligação da vida.

A organização dos seres, dos grupos, dos comuns e das constelações, não pode ser explicada pela lei da linearidade que impõe repressão. O movimento amoroso, dinâmico da collage pode servir de estrutura e lei motivadora para existência de uma livre organização baseada no acoplamento dos grupos, das multidões.

Já não se trata de enunciar ou propor rebeliões ou afastamentos, abandonos dentro do amor. O amor é a livre e pura forma de existência. É a subjetivização de um corpo por outro, de um corpo no outro, um de um tempo no outro.

Multitude é o mosaico dinâmico sem forma definida, mutante, mutatis mutanti, kaleidoscópio em rotação de espaços, em rotação amorosa. Collage é a multitude dinâmica.

Mas o que haverá de comum nesses pequenos grupos, nesses indivíduos a não ser as bordas de cada tempo, de cada um ao lado do outro, dentro do outro? Para cada situação espacial, sempre haverá uma borda, uma tênue linha que definirá, com a mais precisa imprecisão, os estados do ser, do espaço e do tempo. O amor é o fio que ata as coisas, os seres, as fronteiras do tempo, do espaço e da existência.

O comum são as bordas de cada tempo, de cada matéria, de cada corpo, de cada um, de cada instante, as sobreposições e significados comuns, os significados distantes, as essências desvanecentes que, ao se colarem, geram um ‘comum incomum’.

A borda é o outro. Essa talvez seja a essência do tempo Kairós, a colisão gerada pelo brilho dos acoplamentos dos corpos gerando um novo espaço, um novo significado, um novo tempo, um novo ser. Que se abre para uma nova geração.

A descoberta do comum a partir do in-comum está na potência da força do sentido. O in-comum é o comum dentro. O comum aceito pela figura da espera, a hospedagem. A festa dos corpos.

Multitude é sempre o espaço da festa, da união

Multitude não pode se manifestar todo o tempo como uma unidade dinâmica de justaposições, multitude não tem forma, é nuvem, e seu espaço está sempre em crescimento, em crescente ocupação, desdobramento, gerando o crescimento das multidões.

Multitude é nuvem de nuvens.

No entanto, todas essas figuratividades, todas essas figuras-corpo da collage acabam virando abstração dentro da grande constelação mosaico, isso é o “incomum”.

O trabalho de percepção das constelações é um trabalho de idas e vindas, de afastamentos e aproximações, ora revelando uma coisa ora outra, ora mostrando de perto figurações, figuras-ações, ora distanciando-se no mundo das abstrações representacionais. Toda abstração tende a virar figuratividade para o corpo, e todo excesso de figuração tende a ser lido como abstração, mancha, textura, massa homogênea. Isso define o nome comum: Multitudo. Multitude é collage em representação viva, em fixação provisória e dinâmica.

Kairòs, Alma Vênus e collage advêm do amor e da pobreza, porque trabalham com o que foi refutado, rejeitado, sobrado, abandonado.

Collage é o sobrado do desejo.

Collage trabalha com o existente, o deixado e atirado na borda da praia, o localizado no contorno dos corpos.

Para Negri, o amor, no biopolítico pós-moderno, é intelecto geral, essa explosão amorosa do intelecto geral que desenvolve a resistência em potência e que a predispõe a se tornar máquina de eventos metamórficos do sujeito comum.

“Portanto, a era do homem-máquina será definida após as eras do centauro e do homem-homem, pelas metamorfoses do humano em máquina comum amorosa.” #

O amor é o que cola as singularidades, a única revolução que vale a pena.

A cola do impossível. O espaço da realização do impossível.

Mas o amor continua como a força indefinível.

“O Estado, no pós-moderno, organiza a exploração do trabalho social vivo sob a forma de controle. Isso significa que, no comum, ele organiza a exclusão daquele pobre que é produtor do comum. Por realizar-se no comum, a violência dessa exclusão é extrema.” #

Toda decisão implica uma atitude amorosa, ou toda atitude amorosa implica numa decisão, uma colocação espacial, positiva ou negativa relacionada ao encontro, para Negri: uma transvaliação subjetiva.

A decisão é sempre o momento ou da ruptura, do corte, da cisão, ou da fixação da cola. A decisão é o momento do vacilo da consagração. O momento da utilização da cola.

O evento/decisão é o fazer auto-governo por parte da multidão, é o colar, descolar, o domínio da multidão sobre si mesma.

“As formas de rebelião são muitas (as formas de recorte também), isto é, todas as formas que a pobreza exprime como potência; e o amor as distende para além da borda do tempo, e o comum as recolhe como telos das singularidades múltiplas.

Portanto, é o amor (o trabalho vivo) que estabelece as condições da decisão como auto-governo no comum da multidão.” #

No entanto, essa relação que se estabelece e essa decisão já não pertencem a nenhum ideal de cada figura, ou grupo. Na collage, as decisões transbordam os desejos individuais ou mesmo dos grupos, elas transcendem a própria compreensão de todos participantes. Raramente há uma decisão comum. Por isso, às vezes essa decisão, só fará sentido ao todo e, muitas vezes, poderá parecer uma locomotiva desgovernada, uma incompreensibilidade amorosa. A decisão só faz sentido às bordas do tempo. Ao reflexo que está fora de toda orientação, independe das vontades e potencias individuais.

“No pós-moderno, a forma eminente da rebelião é o êxodo em relação à obediência, logo em relação à participação na medida; é, portanto, a abertura para a desmedida,” #

“O auto-governo da multidão é a máquina comum do intelecto geral, logo, subjetividade revolucionária.”#

“É da intensidade da singularização comum dos corpos que nasce a ‘decisão’”.#

A decisão é o encontro colado, selado.

“Na era do homem-máquina, a militância do comum é produto de uma ‘tecnologia de amor’ específica. Esta se forma e se exerce, antes de tudo, no biopolítico e consiste na co-produção de singularidade e de comum, de cooperação e de inovação, de linguagem e de decisão. Por essa co-produção fica determinado, ontologicamente, quem, produzido pela potência da pobreza, gera o telos comum através da práxis amorosa.”#

“Fazer política no biopolítico pós-moderno é (...) ir embora, sair do domínio, do poder do Estado, dos tiranos de qualquer espécie, dos tiranos da igreja, do poder autoritário em sua microfísica, e da ilusão de todo transcendental, para produzir novas temporalidades e novos espaços comuns, cooperativos, sobre a borda do ser e para realizar aquela inovação amorosa que dá sentido ao ser comum.” #

Quem não pode ir embora é o partido político moderno, já que são os velhos afetivamente que não conseguem abandonar suas crenças, suas obsessões; aqueles que, sobre a representação e/ou apresentação como vanguarda das massas, como libertadores, ou profetas, construíram sua figura e elaboraram sua missão institucional e sacerdotal. Esses não vão mesmo, ficam como obstáculos, pois escolheram nunca conhecer o amor. Ora, não é a representação política, as construções políticas, nem a fé que podem construir, na multidão, o telos comum, mas só a decisão de ir embora da representação, de fugare do Estado soberano, de todas as instituições representativas, assumindo, portanto, a potência amorosa individual, para se instalar em novas temporalidades comuns.

O ‘vamobora’ é uma transavaliação do ser, ainda que, muitas vezes, dolorosa como o exílio. O abandono , algumas vezes, pode ser doloroso tanto para quem deixa e sobretudo para quem é deixado.

O abandono feliz é quando a gente se descola das coisas materiais que não mais se deseja.

Mas qual o preço desse êxodo quando envolve pessoas?

O “vamobora” é abandono das formas tradicionais, da representação institucionalizada, que permeia desde as fundações até a cobertura da edificação.

O ir embora é característica das figuras errantes, da errância de cada figura.

Errância é a capacidade de cada figura de transportar-se para a figura do outro.

Habitar temporariamente o outro. Condição fundamental para a existência do amor. O amor não vive sem o outro.

‘A nova temporalidade’ é sempre, de certa forma, a temporalidade do outro, estar dentro do tempo do outro, ao seu próprio tempo, habitar o espaço do outro, viver dentro do outro. Habitar o outro até que um não queira mais.

O domínio é medida de exclusão, o ir embora de si, sair de si, premissa amorosa, é medida de in-clusão.

Se, ir embora é construir nova temporalidade para determinar nova potência, não se trata apenas de ir embora do domínio, do lugar. Se, de fato, o domínio é medida de inclusão/exclusão, ir embora constituindo (construindo nova potência) é ir embora com os excluídos, ou seja, com os pobres. O que vai embora fica “pobre”, abandona, libertando-se da escravidão das representações impostas a ele de toda espécie, do Estado, das Igrejas, dos Partidos, das Associações, enfim do outro que subjulga os pobres com sua batina negra, que se nomea libertador, que se faz poderoso, alimentando seu ego com os restos humanos. Esses são os abutres que profetizam em nome dos excluídos.

A ‘Nova Potência’ é o potencial de cada figura, e não mais de um líder ou de um educador que acreditam numa revolução, mas sim de cada corpo, de encontrar-se com os outros em situação semelhante e de permanecer o maior tempo possível, amorosamente.

“Ir embora constituindo significa, em segundo lugar, agir na desterritorialização extrema que os corpos da multidão experimentam no pós-moderno; significa, portanto, hibridar, de maneira cosmopolítica, o mundo da vida, ou seja, apropriar-se da mobilidade global por meio da geração de novos corpos. ‘Proletários de todo mundo, uni-vos’ significa hoje: misturem as raças e as culturas, constituam o Orfeu multicolor que gera, a partir do humano, o comum.” #

A collage dos corpos.

“Em terceiro lugar, ir embora constituindo significa, na re-territorialização extrema que os corpos da multidão pós-moderna experimentam, construir máquinas comuns pelas quais o homem possa expandir-se para além da borda do tempo, ou seja, construir maquinicamente na desmedida, fazer do monstro tecnológico o anjo do porvir.” #

No entanto, contrariando Negri, nesse super homem máquina o acaso só pode manifestar-se sob a forma de enguiço, mesmo, avaria, submissão de seu corpo intelecto a sua parte máquina como extensão, provocando um horrível vazio existencial, de um sem-sentido total de sua existência.



“Com Sessenta e Oito, a cidade dos homens lançou a flecha da temporalidade revolucionária do comum com decisão irreversível. Diante deste kairòs de pobreza e amor, a cidade de deus, enfim, apenas, regurgita.” #

“Alma Vênus: é o hino cotidiano ‘a revolução do eterno.” #

Muitos Kairòs já foram lançados ao longo do tempo, os arqueiros florentinos do quatrocentos e as suas flechas do tempo já atingiram seus alvos.# Agora, a simultaneidade de tempos a um só tempo: a collage, também se destrói enquanto projeto, enquanto representação, e sugere os limites de sua própria representação, as bordas de sua representação, e finalmente de seu cessar.



Kairòs é conhecer o evento do conhecer, do nomear, o conhecer com singularidade.

Kairòs é a imagem clássica do ato de lançar a flecha.

Para Negri, kairòs é a nomeação, nomear o ser diante do vazio, antecipando-o e construindo-o na borda do tempo. Mas como cessar de nomear as coisas mortas? Se toda civilização ocidental está baseada na nomeação através das representações, nomeando coisas ausentes, mortas e ou inexistentes. Na nomeação das coisas vivas, não há nomeação do comum como conceito, apenas o singular, “aquele”, “este”.

Como dar sentido real à nomeação, ao conhecimento mediado, intermediado, agora, pelas novas máquinas?

Negri, corrobora com essa interpretação que está na origem do mundo moderno. Tudo o que nomeio existe. Mas se trata de entender qual é a sua existência. Para nós, interessa que o nome chame a coisa à existência e que o nome e a coisa estejam aqui #. Necessariamente, sem uma representação, sem uma intermediação. Ora, é exatamente esse ‘ao mesmo tempo’ que imprime verdade ao nome e ao nome comum, que põe nome e coisa “exatamente aqui”.#

“O nome marca uma coisa no espaço: essa parece ser a primeira e mais simples experiência do nomear.” #

É por isso que os índios guaranis, quando vão mostrar o mundo para suas crianças, ensiná-los, saem pelo mundo afora nomeando os seres e as coisas em seus lugares específicos, apontando esse, aquele, e dando seus nomes. E essa nomeação está diretamente associada ao lugar. Não há nomeação sem o lugar, sem o espaço, sem o ser.

O processo de nomeação do mundo, através das representações técnicas, e dos conceitos, tem se constituído num corte retangular ortogonal que transforma tudo em ‘massa-massa’. Hoje as crianças conhecem as coisas, os seres, os animais, através de fotografias, imagens técnicas, antes mesmo, de conhecer todo o mundo “vivo”. Em seus lugares respectivos.

Somente através de um segundo ‘re-corte’ que posso subtrair a figura de sua abstração, de seu conceito institucionalizado, do comum, das figuras impressas. Através desse novo recorte, dessa de-cisão re-tomo a singularidade da imagem, do ser, resgato a vida. Este recorte é, enfim, uma nova nomeação formativa do ser figura, do corpo-figura que o abre para uma nova liberdade. #

Se a decisão na collage se dá através do recorte, então como se dá a decisão da multidão para Negri em Kairòs, Alma Venus, Multitude?

“A multidão que decide é muito semelhante àquela que no moderno tentou a aventura do comunismo e que no pós-moderno, por ora, propõe-se no ‘êxodo’, nova figura ‘espectral’ de qualquer comunismo futuro.” #

A retirada, o abandono, o êxodo de qualquer fragmento deixa um vazio, um buraco no mosaico, na collage. O êxodo é o abandono, ele abre a porta para corrosão, e uma possível evasão de todas as outras figuras, abrindo assim a fissura do sem sentido, do despegamento, da decollage, da ruína.. Essa falta de sentido é a retirada do amor, a cola que ata todas as relações.

Todas as peças clamam, num certo sentido, que o grude permaneça atuando por força da unidade dentro da collage. A collage não quer terminar, então convoca novas figuras para preencher o vazio deixado por aquelas peças que renunciaram a coexistência colada. A decisão na collage é sempre uma opção entre a retirada e a permanência, entre o recorte e a fixação, entre o abandono e a ocupação, a decisão do ingresso de novas peças, novas figuras.

A decisão implica não só entradas e saídas, mas também num deslocamento dessas peças dentro do mosaico multitudo, dentro da collage.

O êxodo é o deslocamento, a trajetória amorosa da Collage que não se deseja até o momento da insuportabilidade da convivência. O êxodo será assim a errância, a capacidade de vagar, errar em busca do ser amado. O êxodo será o motivo do abandono. Aquele que parte sempre deixa uma espera, de uma possibilidade de retorno. O abandono é uma das causas da re-presentação.

“Entre moderno e pós-moderno, muitas, muitíssimas coisas mudaram. Em primeiro lugar, mudaram as relações de produção, porque a força-trabalho se metamorfoseou. Em segundo lugar, triunfando sobre seus adversários e concorrentes socialistas, o regime capitalista se tornou totalitário e, é claro, mais feroz. A razão é uma só: ele faz com que a produção não provenha unicamente de suas fábricas, mas para seu próprio enriquecimento, faz trabalhar toda a sociedade; não explora mais somente os operários, mas todos os cidadãos, não paga, mas faz com que todos paguem para que ele comande e ordene toda a sociedade. O capitalismo investiu sobre a vida, sua produção é biopolítica; o poder, na produção, é uma ‘superestrutura’ do que está espalhado e reproduz-se na sociedade. O ‘sistema disciplinar’ da organização social, então, substituído por um ‘sistema de controle’ (para usar a terminologia de Foucault): não podia ser de outro modo, se o produtor (o operário ou o proletário, a força trabalho intelectual ou material) reapropriou-se do instrumento da produção, que se chama, cada vez mais, cérebro”.#

O nomear em Negri adquire um lugar importante.

Negri divide o Kairós em três lições: Prolegômenos do nome comum, onde trata de situar a questão do nome comum em oposição ao conceito, onde demonstra que o nomear atrela-se simultaneamente a um nomear o tempo e próprio espaço do ser, da coisa e simultaneidade. A segunda lição destina-se aos prolegômenos da desmedida, e a terceira lição dedica-se ao Kairós e o campo materialista.

Todos os três aspectos envolvem os limites, as bordas. Os contornos como conceitos, e a nomeação.

Enfim, falo das bordas do ser, das bordas do espaço, das bordas dos lugares, dos limites entre a terra e o mar, entre os limites do céu e do mar, entre os limites da terra e do ar, na busca do indefinido contorno da matéria.

Falo também do desaparecimento das fronteiras, concordando com Negri que cita o Apocalipse de João V “Vi um céu novo e uma terra nova, porque o primeiro céu e a primeira terra haviam desaparecido e o mar já não existia.”

Perguntamo-nos, enfim, que relação a collage guarda com os limites dos territórios, com os Estados, com a geografia, com a representação do mundo? Onde ver o Kairós? Como é possível ver no nome comum o trabalho do recorte das figuras, dos corpos?

Como conceber uma collage sem as representação institucionalizada, as fotografias, as imagens técnicas, é isso, exatamente, que, em outras palavras ainda representacionais o que Negri nos propõe.

O problema de todo mosaico, em suma, é a retirada, o aniquilamento da figura soberana, aquele que visualiza a imagem prévia em que deve se moldar o mosaico, ou seja: a supressão das forças da liberdade, da individualidade. O soberano se opõe ao mosaico moderno, aleatório, como a collage. Ele, o Estado soberano, de certa forma, se opõe à produção coletiva, à construção comum coletiva.

Alma Vênus é amor, é o encontro do dentro e do fora.

Kairòs é o tempo do recorte, que anuncia a de-cisão, a escolha. A fundação.

Kairòs, a cada vez que se anuncia, toma a forma de tempestade.

Multitude é o resultado amoroso da passagem do Kairòs e de seus recortes. Kairòs se anuncia abrindo fissuras, esfacelando.

Alma Vênus se localiza na borda, na borda do ser, na superfície, o lugar mais próximo e seguro aos transbordamentos.

Alma Vênus é a superfície refletora que cola.

Assim propomos a nomeação como Recorte.

Nomear é recortar, conceituar em termos lingüísticos clássicos, recortar a figura, o papel-figura, a figura-corpo da página. Negri distingue o nome do nome comum, “digamos ‘nome’, ou seja, um signo lingüístico que atribuímos a uma coisa, e ‘nome comum’, quando as coisas são muitas e pretendemos representar o seu elemento comum.” #

O fascínio do nome comum é a denúncia da vida no nome, a vida nomeada, o nome vivo, distintamente da nomeação intermediada pela representação. “Tudo o que nomeio existe” quando essa nomeação é feita no lugar específico, ela adquire o verdadeiro sentido. Mas se trata de entender qual é a sua existência. Para nós, interessa que o nome chame a coisa à existência e que o nome e a coisa estejam ‘aqui’.”#.

Negri renomea seu mundo a partir, também, do afogamento das representações. Não fala do fim das representações, mas fala de um novo tempo, um novo céu, de certa forma, de um retorno à presença do corpo em detrimento das suas representações.

A lingüística clássica colocava a nomeação do mundo fora do corpo, da vida, no âmbito da representação, no âmbito da substituição. Negri coloca a nomeação não só sobre o corpo vivo, mas sobre o espaço que esse corpo habita e carrega. “Também o nome comum parece, à primeira vista, surgir de uma experiência desenvolvida no espaço. Se marcar a coisa no espaço não ocorresse ao mesmo tempo em que o evento da coisa, não estaríamos em condições de imprimir verdade ao nome nem ao nome comum.” #

O corpo carrega consigo seu espaço, seu tempo, ao contrário do que “acontece na tradição clássica, em que o tempo é a imagem, móvel da imobilidade do ser (...) Definir o tempo (ou mesmo o espaço) como modalidade extrínseca feriu o senso comum dos modernos.#

O que significa “isto aqui? O “isto aqui” é o evento do nomear adequado, ou o nexo real do nomear e do nomeado “ao mesmo tempo”. Para Negri, o ‘evento’ é a verdade (adequação) do nomear e da coisa nomeada que nascem ao mesmo tempo. “Ambos são chamados a existir: nesse sentido, nome e nome comum constituem um evento.”#

O evento nada mais é que o aparecimento, o dar-se a conhecer. A aparição.

(...) “o nome (...) assume características corpóreas se for verdade que o corpo é o predicado de qualquer sujeito que vive no tempo, ou seja, de algo que existe no próprio momento no qual é nomeado.”#

Assim, a ontologia do tempo participa da ontologia do conhecer. Ou seja, não pode haver nomeação sem espaço.

O espaço e o tempo participam do nome, do nome comum, do conceito. A experiência, por ser uma testemunha imediata da incorporação do conhecer à temporalidade, nos diz que o tempo não é um invólucro ou uma modalidade extrínseca do conhecer, o espaço é conhecimento, ele participa do conhecer. Didi-Huberman também nos propõe uma nova categoria de espaço, não mais fora do corpo, mas de um espaço indissociável do próprio corpo, uma categoria de espaço em que o próprio corpo, o próprio ser carrega todo o espaço de sua existência. Nesse sentido, está também o brilhante trabalho de Marcia Tiburi, Filosofia Cinza.#

Devemos entender o Kairòs como uma modalidade do tempo através da qual o ser se abre, se abre como recorte, atraído pelo vazio deixado pela passagem da tesoura, pela passagem da flecha do tempo, da gélida lâmina do tempo, que está no limite do próprio tempo, expondo este vazio.

Mas o corpo recortado, esvaziado, subtraído de seu contexto, sempre deixa a marca de sua existência, abre espaço imediatamente à figura da “espera” que está por trás. Há espera em todos os lugares. Isso significa que, no universo das representações, sempre haverá outra figura para preencher o vazio deixado por quem resolve abandonar, ou foi dispensado.

Esse contorno esvaziado de qualquer conteúdo permanece como rastro, mas incorpora em seu vazio, um novo corpo, um novo nome, um novo tempo, uma nova multidão, nem melhor nem pior, apenas outro.

O abandono é um corpo esvaziado de sentido.

Kairòs gera o espaço para o ingresso de um novo corpo, uma nova figura. Kairós é a mobilização do sentido, a anunciação de Vênus.

“Podemos dizer que, no Kairòs, nomear e coisa nomeada chegam ao mesmo tempo, à existência, e que são, portanto, exatamente isto aqui” #. Isto porque, à medida que vou recortando, vou abrindo espaço e tempo para a criação, para a passagem do evento.

Kairòs não é só tempo que cria a passagem da abertura da vida, mas kairòs é a transformação da matéria. A significação da vida.

“Kairòs, de modo ambíguo, como se referiu Negri, é ‘o ser em equilíbrio’, ou o instante no qual o ‘arqueiro lança a flecha’, kairòs é, então, a inquietude da temporalidade.” # De certa forma é “a insistência real naquele ponto do tempo e, portanto, o ato do ser de se debruçar sobre o vazio do porvir, ou seja, a aventura para além da borda do tempo.”#

Kairòs é a abertura do espaço, a fenda, o precipício que se abre e se expõe à renovação do eterno. “É a simultaneidade do nomear e trazer à vida a coisa nomeada. No momento em que o recorte chama à existência a coisa que vai ser nomeada, e a coisa lhe corresponde na sua concretude e singularidade.” #

Mas se a tesoura, o recorte, corresponde à nomeação do mundo – recortar é definir, contornar, abrir para vida – então o recorte, a nomeação, ambos, correspondem a uma ação sobre o mundo já existente, por assim dizer em seu estado brut, como definiriam os existencialistas. Essa passagem da lâmina da linguagem sobre o mundo, corresponde não só a inscrição da existência do objeto ou ser nomeado, mas também uma outra nomeação sem sentido sobre a figura do reverso, e também da nova figura que se abre sobre o vazio do verso e reverso.

Esse destacar também implica em uma abertura, um vazio que será preenchido espacialmente e temporalmente por outro corpo. A inquietude do tempo nada mais é que a abertura para novos corpos, novos significados.

No mundo da collage, no universo multitudo, uma nomeação corresponde a várias figuras, a várias coisas. Traz a coisa vista e as não vistas.

“Só terei certeza disso, quando percorrendo as diversas potências do nome comum, tiver demonstrado que conhecer o verdadeiro é olhar, exprimir e viver o ser do ponto de vista do kairòs, ou seja, do instante que está entre a realização tempo e a abertura do porvir.”#

“O nome realmente se apresenta no oscilar do kairòs e é por meio dessa oscilação que a verdade se mostra. No instante, oscilando, o menino se apropria do nome, assim, quem inventa aproxima o novo, e o poeta fixa o verso. A solução da oscilação, a sua necessária decisão, é a apresentação do nome.” #

Kairòs oscila entre o nomear e a coisa nomeada, é o instante, é a passagem da lâmina, da flecha do próprio tempo em sua trajetória, em sua inquietude. Na sua inquietude, enfim, da inquietude da matéria que arrasta seu próprio tempo, sua eternidade.

É no kairòs, na matéria destacada que nasce o tempo, é do trabalho do recorte sobre a própria matéria, que nasce o nome, o nome comum. Kairòs se manifesta sobre o vazio da aventura do tempo, e decide a respeito do vazio, preenchendo com novas nomeações, novas figuras.

Recortar é deixar buracos sobre o mundo das coisas.

A lâmina carrega o tempo, atrita a própria matéria, magnetiza, criando o que Negri definiu como inquietação do tempo.

O vacilo do recortar decorre da compreensão da coisa e do próprio ser. Kairòs é, ao mesmo tempo, revelação e nomeação.

Toda nova figura tende a fixar-se no mosaico, quer participar da constelação, quer grudar-se.

A cola é atributo da universalidade, do comum, re-agrupa os fragmentos produzidos pela modernidade. A collage é um truque, ainda que exponha as marcas de seus recortes, é uma sujeira que pretende que a coisa colada seja inteira, seja massa, quando na realidade não é.

É um artifício, é criação, invenção. Mas um curioso artifício, porque a coisa depois de colada está realmente ligada. É uma espécie de síntese, uma mentira que foi feita em função de uma verdadeira organização, de um verdadeiro processo criativo.

A cola aparafusa, atormenta.

A cola esconde a superfície, ao mesmo tempo em que se esconde por trás da figura, quase nunca é visível, seu espaço tópico é a superfície oculta da figura. É o artifício, a artimanha que disfarça as superfícies ao olho. É sobreimpressão.

Sua qualidade é ser íntegra, sem ser em realidade. A collage cria a ilusão de homogeneidade da pele, ao soturar as feridas abertas pelo corte cirúrgco da tesoura, e isso nos aproxima ao conceito da própria costura.

Não cura, nem salva, só fecha a boca dos abismos.

Finge salvação e sanidade, sem ter. Conecta os tecidos separados (as constelações) transplanta fragmentos, inverte um corpo no outro.

A saliva, como cola, limpa, lava a imagem e; quanto mais lavada está a imagem mais colada parece, mais verdadeira é para o senso comum.

Essa estranha propriedade enganosa da cola é o que me faz suspeitar dela quando vira modelo de organização e de produção, matéria constituída, instituída, representacional, reinventada mesmo.

Esse temor como esbocei, também é o temor do encontro, a mesma angústia que se manifesta na hora de colar.

Esse temor é pertinente a todo encontrar-se em geral, a aproximação, a proximidade e o contato caracterizam o temor inicial do colar-se, de gozar a conjugação do imaginário realizado pelas figuras. Assim, não é de se estranhar que a multitude venha acompanhada de um constante temor que permeia todos os encontros dos grupos, das figuras que a constituem.

Esse projeto de colar todas as coisas e corpos no mundo, é verdadeiramente louco e sem sentido, tal como as multidões ‘desloucantes’. Mas o imaginário do mosaico, das multidões, esse imaginário sem imagem pré-determinada, não está precisamente definido por sua coalescência, sua precipitação, potencia agregativa do pastoreio?

Poderíamos nos questionar ao final, talvez, se no fundo, a collage “multitude” é collage de superfícies, das superficialidades, porque todos os corpos e seres descobriram que sua dimensão de profundidade, sua espessura, já não existe mais.

Talvez a collage, como trajetória amorosa, exemplifique também as mobilidades amorosas, características do amor moderno, do amor líquido como referiu Baumann.

“Será que os habitantes de nosso líquido mundo moderno não são exatamente como os de Leônia, preocupados com uma coisa e falando de outra? Eles garantem que seu desejo, paixão, objetivo ou sonho é ‘relacionar-se’. Mas será que na verdade não estão preocupados principalmente em evitar que suas relações acabem congeladas e coaguladas? (coladas, diria eu)”. Estão mesmo procurando relacionamentos duradouros, como dizem, ou seu maior desejo é que eles sejam leves e frouxos (facilmente descolados, digo), que possam ser postos de lado a qualquer momento” #



Longe das multidões, longe das cidades.

Na beira da praia, na liquidificação da matéria encontrei a collage, no Kairòs, na Alma Vênus, na Multitude.

No mar, vi refletida a alma Vênus.

No céu estrelado, as multidões perdidas e afastadas uma das outras, na beira do mar as estrelas caídas, mortas, secas, pelo próprio sol, enfim, vi a matéria dissolvendo-se uma na outra numa eterna repetição do mesmo.

Todos os cacos, todas as estrelas, todos os colaboradores trazem em si o amor, o grude amoroso, o desejo de ser uno, de ser outro, sem, entretanto, nunca poderem ser.

Nem por isso desistem, e voltam a tentar uma vez mais e mais.

Talvez seja por isso que, à noite, olhamos e vemos as incansáveis estrelas cadentes, ou errantes em busca de seus outros.

Flores no mar, estrelas na terra, multidões no ar.

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