14 de fev de 2011

A collage surrealista no Brasil
Fernando Freitas Fuão

The research project entitled "The Surrealist collage in Brazil: visual arts" exposes and rescues the artists committed to the collage from the perspective of Surrealism. To enclose it into the realm of surrealism was purposely to restrict the broad repertoire that is commonly known as glue. The collage differs from the glue: The collage seeking a change of direction of things, and the world, while the word glue expresses only the worldly sense of paste, and add or things. This study shows the activity of collage as one of the languages of surrealism, expression par excellence of the unconscious, manifested through the displacements, substitutions, chance encounters, hasard. This paper presents, sequentially, Brazilian artists, with approaches to surrealism, who worked experimentally with collage, from the first half of the twentieth century until today, among them: Jorge de Lima, Teresa D'Amico, and poets and artists linked to the Surrealist Group of São Paulo, formed from years 60-90 by Sergio Lima, Floriano Martins, Nelson de Paula and others, and finally the artist João Manta in Pelotas, Rio Grande do Sul
Keywords: Collage, Jorge de Lima, Tereza d’Amico, Floriano Martins, João Manta

1. Introdução. A collage no Brasil
A collage no Brasil foi recluida a uma espécie de marginalidade oficializada, donde muitos praticam, mas poucos se atrevem a estudar ou comentar o fenômeno. A collage esteve presente, ainda que de forma implícita em todas as manifestações artísticas da modernidade no Brasil, entretanto a maioria dos livros se esquivou oportunamente do tema, dando preferência à pintura, literatura escultura, arquitetura. Quem lê, quem vê as historias da arte moderna brasileira acreditará que nunca se fez collage.
Este artigo ao delimitar a collage ao campo do surrealismo restringe propositadamente o amplo repertório que se conhece vulgarmente como colagem. Diferencia-se aqui, portanto, a collage da colagem. A collage busca uma mudança de sentido das coisas e do mundo; expressão por antonomásia do inconsciente, trabalha através de deslocamentos, substituições, encontros fortuitos, acaso; enquanto a palavra colagem expressa apenas o sentido mundano de colar e/ou juntar coisas.
Apresenta-se, seqüencialmente, alguns artistas brasileiros, selecionados da pesquisa A collage no Brasil artes plásticas e arquitetura (CNPq-UFRGS) comprometidos e ou com aproximações ao surrealismo, entre eles: Jorge de Lima, Tereza D'Amico, Sergio Lima, Floriano Martins, Nelson de Paula e João Manta.

2. Jorge de Lima
Jorge de Lima (1893-1953), um dos precursores da collage no Brasil, percorreu a poesia, a pintura e a collage como formas de expressão, passando continuamente de uma linguagem a outra. Nesta transfusão de linguagens a collage se apresentou como ponte na articulação de pensamentos que ia de um estado a outro.
 A pintura em pânico (1943) é provavelmente a primeira fotonovela/collage, realizada segundo os moldes de La Femme sans tête (1929) e de Une Semaine de bonté (1934) de Max Ernst, onde a narrativa clássica dá lugar a uma narratividade descontinua através de golpes de corte, de deslocamento de significados similar ao mundo dos sonhos. Jorge de Lima adota muito dessas estratégias, como também por ex: a substituição de cabeças de pessoas por animais, a utilização da frottage sobre tecidos e ou rendas. Sobretudo pode-se observar nas collages de Jorge de Lima uma constante dramaticidade que é retratada nas figuras femininas através das mãos, cabeças e cabelos.
A redescoberta de A pintura em pânico só foi possível pelos estudos de José Niraldo de Farias, Sergio Lima e Ana Paulino. Tudo em Jorge de Lima é transfiguração e recriação, como aponta Farias; mesmo partindo daquilo que já existe, o poeta criou novos espaços, novas possibilidades, abrindo perspectivas inusitadas para a aventura poética: “O fato de um médico ser poeta, ter se dedicado também a pintura e ter publicado um livro de fotomontagens intitulado A pintura em pânico nos demonstram um grande interesse do artista pela collage”
Sergio Lima, um profundo estudioso do surrealismo no Brasil, observou, por outro lado, a falta de divulgação das collages de Jorge de Lima, apontando os desvios intencionais terminológicos dados às suas collages. Relata que houve, no Brasil, vínculos explícitos com o surrealismo e seu movimento, desde inícios dos anos vinte; o livro “A pintura em pânico sofreu uma redução intencional promovida por Mario de Andrade, dizendo desde fins dos anos 30 que as ‘collages’ de Jorge de Lima eram meras fotomontagens, e que collage não era uma palavra brasileira.”
Ana Maria Paulino, em seu livro Jorge de Lima, poesia e pintura#, apresentou as relações entre a pintura e a poesia; nele havia só três collages. O livro foi dividido em três partes: o poeta, o pintor, e o poeta-pintor. Observa-se assim, de entrada, certa exclusão da collage, a qual não temeria de repetir que seria o elemento aglutinante entre poesia e a pintura de Jorge de Lima. Paulino escolhe três collages, que denomina também fotomontagens, entre as dezenas que compõem o A pintura em pânico; a escolha foi oportuna ao discurso de Paulino: são collages onde aparece a presença da mulher e do feminino, algumas sem cabeça, as quais ela criticaria desde a óptica do feminismo.


Jorge de Lima. Collage . In: Idem. A pintura em pânico. 1943. Fonte da ilustração: http://www.apinturaempanico.com/exposicao.html


Jorge de Lima. Collage. In: Idem. A pintura em pânico. 1943. Fonte da ilustração: http://www.apinturaempanico.com/exposicao.html


3. Tereza d’Amico

Tereza D'Amico (1914-1951) também pode ser reconhecida como uma das precursoras da collage surrealista no Brasil. Descobrir essa arte da collage em Tereza D'Amico significa reencontrar um pouco a magia do folclore brasileiro em suas alegorias, mitos e ritos.
Tereza descobriu o valor dos materiais extras pictóricos como: sementes, areia, conchas, gravetos, cerâmica, penas, ossos para materializar suas collages através de estratégias compositivas como: mosaicos, acumulações e substituições.
Suas collages referenciam essencialmente ao sagrado; a collage Orixá (1961), por exemplo, é a figura humanizada de um deus transfigurado em 'corpocollage'. O inusitado está na presença de elementos da natureza como um esqueleto de peixe, sementes e borboletas. D’Amico, propõe um jogo surreal entre esses elementos: no lugar do nariz o esqueleto de peixe, no lugar da boca uma borboleta; a correlação analógica entre a espinha de peixe e o nariz não se dá só através da forma, mas sim na relação de flexibilidade e movimento que ambos similarmente apresentam. A partir deste jogo de significado surgem novas interpretações para o que é visto, lembrando a relação entre o movimento dos lábios e o bater das asas. Para representar as mãos, D’Amico utiliza-se de duas sementes de mamona, fazendo referência àquilo que se agarra, gruda e pega. Enfim, Orixá sintetiza um processo inusitado de substituições de partes, levando o sentido a transcender a mera materialidade. Orixá, nas mãos de D'Amico é o deus interrogante do corpo.
Collages como Sendas, O semeador (1965), Paisagem encantada (1963), Mapa (1962) são collages cartográficas, uma cartografia surreal. Na collage Sendas, podemos ler a imagem tanto como um mapa onde existe a presença de caminhos, montanhas, rios, ou ver uma figura humana cujos membros como pernas e braços confundem-se com um gigantesco falo. A inobservância da importância de D'Amico na cultura brasileira foi explicada por Geraldo Ferraz: “a falta de uma teoria ocidental da arte mágica tem talvez constituído um obstáculo para a compreensão de muitos artistas contemporâneos.”


Tereza d’Amico. Orixá. Fonte da ilustração: http://mundocollage.blogspot.com/



Tereza d’Amico. Sendas. Fonte da ilustração: http://www.revista.agulha.nom.br/ag26amico.htm

4. Sergio Lima
Sergio Lima,  um dos principais estudiosos do surrealismo no Brasil, poeta, escritor, começa a trabalhar com collage em 1957; mais precisamente, entre agosto e dezembro produziu As aventuras do máscara negra, uma fotonovela baseada nas collages de Max Ernst. Nesta época Lima já conhecia algumas imagens das novelas-collages de Ernst, mas não o livro em sua totalidade.
Tal como uma fotonovela, As aventuras do máscara negra está composta a partir de textos e collages. O texto algumas vezes é proveniente de escrituras automáticas, poesias, que ora funcionam como páginas-textos, ora como legendas em apoio às imagens. Está construída a golpes de corte, onde a imagem seguinte parece não ter correlação com a anterior. Similar à narratividade dos sonhos, o personagem principal da ação, muitas vezes, assume outras formas, serve-se de outras pessoas para representar-se, assim como os ambientes, cenários mudam bruscamente, revelando que o que importa é o conteúdo a ser transmitido e não a forma, a aparência.
Algumas frases colocadas embaixo das collages são anti-legendas não correspondem ao conteúdo, servem para ampliar o significado e transfigurar as figuras na collage. Essa estratégia, utilizada em As aventuras do máscara negra, ele aplicará em quase todas as suas collages posteriores.
O conteúdo da história tal como o nome indica é aventura e ação. O personagem está baseado nos seriados de cinema da época: Jim da Selva, Perigos de Paulina, Fantasma, Cavaleiro Prateado. Trata-se de uma brilhante trama construída mediante constante reenvios literários ao romance gótico, noir, e histórias em quadrinhos.
O máscara negra, personagem central, em algumas, apresenta-se como um personagem extraído de bang bang, seu rosto nunca se deixa revelar, tal como Fantomas. A primeira collage do livro “O amanhecer do máscara negra”, mostra a cabeça encapuzada sem corpo, flutuando no ar sobre o amanhecer na floresta
As aventuras do máscara negra é lúdica e irreverente, como a essência da collage mesmo, em contraposição ao caráter plástico das collages-quadro realizadas por ele, posteriormente. São cinematográficas, narrativas e cômicas, são tratadas de uma maneira distinta de suas collages atuais, onde há poucas figuras, duas ou três, e estão justapostas lado a lado. Em As aventuras do máscara negra, há bastante figuras recortadas e estão sobrepostas, interpenetradas, enxertadas, inseridas sobre uma figura-fundo, para o desenrolar da ação.
De certa forma, Lima, nessa época, já anunciava sua predileção pelo tema do corpo feminino; esta temática desde então se acentuará e será uma constante em todo seu trabalho, nas collages, desenhos e poesia, constituindo sua teorização do corpo como conhecimento.
Para construir suas aventuras Lima utilizou-se de recortes de revistas da época, como a revista Life e Revista cinema. As figuras recortadas foram as mais variadas, anúncios de propaganda do Toddy, paisagens de natureza; e até figuras femininas tiradas de um baralho pornô.
Todas as suas collages são surrealista: mulheres aladas, bocas que sobrevoam quartos, mulheres metade máquina, metade humana, imagens oníricas e românticas, máquinas fotográficas gigantescas em meio a operários. Sergio Lima trabalha suas collages através da analogia entre as figuras, operando basicamente com duas ou três imagens, estando estas ora distanciadas entre si, ora justapostas, ora sobrepostas, levando a relações conceituais onde brota a luz da criação.


Lima Sergio. As aventuras do máscara negra. 1956-1957. Fonte da ilustração: Lima, Sergio. Collage em nova superfície. São Paulo: Ed. Parma, 1984. p.113



Sergio Lima. La lupa. 1983. Collage. Fonte da ilustração: Escrituras surrealistas II, 1996. Grupo Surrealista de São Paulo. USP. SMCSP.

5. Floriano Martins
Outro expoente da collage é Floriano Martins, nascido em 1957, na cidade de Fortaleza, poeta, tradutor, ensaísta, e também um profundo estudioso do surrealismo na America Latina.
Uma de suas primeiras collages, que aqui destaco, intitula-se Anotações para um livro de Ângela, uma ilustração para o próprio livro de mesmo título. Nessa collage a presença do fogo reflete um pouco de sua relação com a própria atividade do fazer poético.
A figura feminina que aparece na collage esta justaposta a um quadro de fundo onde aparece uma escada de madeira, com um cão mais ao fundo. Alguns elementos conectam as duas imagens, uma delas é a presença da madeira que perpassa a escada, a moldura do quadro, a moldura da janela e da madeira que queima. A idéia de calor, ou fogo, é realçada pelo vermelho utilizado no fundo como uma espécie de espaço neural, o pano de fundo do quadro onde marca a presença feminina é azul e correlaciona-se com o azul pálido do reflexo do céu nas vidraças da janela.
Para Floriano Martins não existe separação entre collage e poesia:
“Não vejo razão para que se estabeleça uma dissociação entre o meu poema e a minha collage. Tudo o que tocamos é memória, somos memória se fazendo a cada instante, portanto, tudo o que cortamos também é memória, trata-se de uma perspectiva filosófica e não meramente técnica. A tesoura age exatamente neste tecido vital que é o tempo. Criamos desde o silêncio, desde o invisível. Toda criação é diálogo, a fundação da diálogo entre ser e mundo. Não vejo razão para a collage ser dissociada do poema, do teatro, do cinema.”


Floriano Martins. Anotações para um livro de Ângela. Collage.s/d. Fonte da ilustração. Foto do autor, Floriano Martins


6. Nelson de Paula
Nelson de Paula, além de trabalhar com collage, é o autor de um emblemático livro: Collage, um testemunho fenomenológico#. Mesmo sendo integrante do Grupo Surrealista de São Paulo, suas collages escapam à estética do resto do Grupo. As collages de Nelson de Paula nos anos 70-80 não excluem a temática do corpo feminino como representação e conhecimento, mas irão situar-se na interrogação da própria representação e profundidade, bem antes da desconstrução proposta por Derrida.
Nelson nos faz ver que as superfícies são como peles. Para ele e Sergio Lima a imagem é tecido, fotografias são peles, e o grafismo que trabalha em cima dessas imagens se constitui quase como uma tatuagem. Ele ataca a superfície, a fotografia, o papel da revista, a pele para fazer a 'in-scrição', a escrita em profundidade. Nelson explora este grafismo como se fosse algo análogo também ao grafismo das veias da madeira, que gravam o registro de uma vivência. São collages que se apóiam na reprodução de fotocopias p&b, típicas da década de 70, e estão publicados no livro: A hóstia de Ísis um kyrie vaudeville, collages, enfatizam a superficialidade do papel-pele, dos suportes. Para expressar essa idéia, ele apaga a possibilidade de leitura de certa profundidade mediante a utilização de manchas escuras, manchas claras, ou simplesmente texturas feitas com canetas nanquim. Achata, chapa.
Ao ler seus escritos compreende-se a relação direta com sua obra plástica. Para Nelson de Paula, “a superfície da collage não se caracteriza por ter aplicações coladas, mas sim pelo deslocamento do próprio conceito de superfície.”


Nelson de Paula. Diana caçadora. (1977). Collage. Fonte da ilustração: PAULA, Nelson de. A hóstia de Ísis, um Kyrie Vaudeville, collages. São Paulo: Edição a cargo do autor. s/d.


7. João Manta
O trabalho de João Manta (1954) está mais próximo do universo pop, do que do surrealismo. As collages de Manta possuem três componentes que permeiam sua obra: a influência do surrealismo de Max Ernst; o caráter pop das collages de Hamilton, das repetições de Warhol; o abstracionismo e a composição de recortes de Kurt Schwitters. Cada um desses componentes se apresentará em determinados momentos de sua trajetória artística.
Sua primeira exposição de collages, em Pelotas, em 1979, enche as paredes de cores e imagens da galeria Van Gogh. Apareceram ali as mais diversificadas imagens coladas, era uma grande quantidade de collages. Joãozinho Manta, já nessa época dos anos 70, não se contentava com recortes delineados e bem feitos da tesoura, com folhas cortadas milimetricamente retangulares pelo estilete.
O que se via na mostra eram folhas de revistas destacadas à mão, arrancadas das revistas, com seu rasgo irregular, amassado. Eram figuras recortadas de revistas velhas, figuras manchadas pelo tempo. Um aparente e proposital desleixo, como categoria estética, fazia parte da amostra.
Este irreverente Manta abrigou, e encobriu de modéstia sua obra, quase que clandestinamente ao longo de sua vida, e, no fim, por mais que tentasse divulga-la, não conseguiu muito. Começou a fazer collages em 1974, e com mais atividade em 1977. Os trabalhos de 1974 eram basicamente collages onde as figuras possuíam um caráter compositivo, sem nenhuma pretensão de alteração de sentido. Eram basicamente exercícios compositivos geniais de figuras recortadas, a meio caminho entre as collages pop e as collages de Schwitters. Nesta primeira fase já se anuncia o modo de??? como ele trataria, futuramente, os recortes fragmentos em suas collages. Em algumas já se manifestava o caráter surrealista.
Sua segunda exposição se chamaria All you need is love, numa clara homenagem aos Beatles de que ele tanto gostava. Interpreto, aqui, essa nomeação também como um endereçamento ao amor como força motriz da collage, a força da criação, a chispa que faz surgir à beleza.
O material da exposição, sem dúvida alguma, era inédito em termos de collage, All you need is love parecia musicar a arte da collage. Uma trilha visual a musicalidade da collage. Uma série de collages com papéis coloridos, cartolinas e papeis duplex, aplicados sobre um suporte irregular de cimento-amianto, insinuando paisagens quase abstratas. Neste espaço irregular as paisagens absorviam em toda sua profundidade o observador.
Diria que Manta conheceu, como ninguém, a arte da ilusão da profundidade da paisagem, sem utilizar-se dos recursos usuais da perspectiva. Suas paisagens estruturavam-se basicamente com dois ou três elementos (montanhas, barcos, contorno de uma vila, uma ilha), evocando toda a profundidade, até perder-se de vista.
O jogo de composição destes recortes se articula, entre uma ou duas grandes superfícies de papeis, simulando o céu, a terra, ou a água, e um ou dois pequenos recortes fragmento, como na collage All you need is love, evocando uma ilha.
Manta falava do ausente na representação, sugeria uma realidade mostrando imagens que se poderiam caracterizar como abstratas. Paisagens vaporosas, imprecisas, românticas, montadas a partir de uma economia quase minimalista.
Memórias, impressões visuais da pequena praia do Laranjal em Pelotas, do luar sobre a lagoa dos Patos, das pequenas vilas portuguesas do Algarve para onde costumava viajar.
Em árabe, Manta é manto: aquilo que encobre que agasalha. Nada mais certeiro afirmar que seu trabalho se relaciona com o céu, sheltering sky, com o manto da noite onde cintilam milhares de estrelas sobre as pequenas aldeias brancas do mediterrâneo e da Lagoa dos Patos. Nessas collages de cartolinas ele evidenciava a relação poética heideggeriana entre o céu e a terra, assinalada pela linha do horizonte, e a arquitetura que se instala entre estes dois planos.


João Manta. All you need is Love. Collage. Fonte da ilustração: Poster da exposição.


Ser esperado ou ser encontrado ao acaso parece ser uma das coisas que caracteriza sua vida artística. Entre os anos de 1978 e 1981, em uma de suas idas à Europa, um primo seu de Clermont-Ferrand, que não entendia quase nada de arte, lhe propôs apresentar um artista que conhecia, mas que não sabia se ele era um artista importante ou não. Manta, até então, nunca ouvira falar de Rolf During, nem imaginava, que este artista nascido em 1926, em Berna, na Suiça, foi amigo e passou pelas mãos de Matisse, Bonnary, Dufy, Braque, Picasso, Dalí, Gertrud Stein e Chirico
As poucas e despretensiosas collages que Manta carregava consigo conseguiram arrancar a admiração, o fascínio e a risada de Rolf, que acabaria dando para Manta um livro com as obras de Van Gogh para ele recortar e fazer suas collages. Manta além de recortar orelhas, recortou girassóis, cadeiras, retratos, camas, velas, etc. Suas colagens eram como novos quadros de Van Gogh. Essas collages ficaram perdidas no tempo.
Em 1981, quando retorna à Europa com a finalidade de estabelecer-se definitivamente, em Portugal coincide com uma exposição de Rolf em Berna, na Suíça. No mesmo ano, e na mesma galeria, Manta realizaria a exposição No name. Uma mostra de vários tipos de trabalho, naturezas mortas feitas com sprays, collages figurativas e paisagens. Manta morava, então, há quase um ano na Europa no intuito de produzir e tentar vender seus trabalhos por lá. Enquanto preparava, durante meses a exposição, certo dia no supermercado acabou conhecendo uma senhora muito simpática com a qual acabou conversando varias vezes, sem sequer saber seu nome; num desses encontros convidou-a para sua exposição. A dita senhora foi à exposição, e lá, depois de muito elogiar os trabalhos de João Manta, se apresentou com sendo Madame Picabia, esposa do finado Francis Picabia. Ele ficou sabendo, também, que Madame Picabia era uma das pessoas mais antipáticas da cidade.


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