24 de abr de 2009

SESC POMPÉIA de Lina Bo Bardi,
uma collage grotesca surreal
Fernando Freitas Fuão
Para os arquitetos mais ortodoxos ou convencionais, dizer que o Sesc Pompéia pode ser considerado uma arquitetura onde estão presentes alguns argumentos teóricos pode ser uma blasfêmia. Conseguir ver uma collage no Sesc Pompéia pode ser uma coisa forçada. Mas vamos por partes. Um primeiro passo para considerar uma collage é a atitude adotada por Lina ao reciclar a antiga fábrica e justapor ou acrescentar um novo prédio que formalmente nada tem a ver, a priori, com a antiga fábrica. Uma abordagem mais ingênua, bastaria dizer que o simples fato de reaproveitar, ou reciclar a antiga fábrica dando-lhe uma nova função, um novo significado, bastaria para afirmar que é uma collage pois o simples fato de introduzir uma nova função lhe deu um novo sentido. Mas não interesando neste aspecto. Quero mesmo demonstrar que o novo edifício proposto por Lina parte de um principio fundamental da collage, o da justaposição ou encontro de dois elementos díspares, em uma conjugação, e que ela se serviu de um elemento pré -existente, uma espera para introduzir um novo elemento, as duas torres com forma de Bunker ou silo. E que estes mesmos elementos guardam uma relação associativa com a antiga fábrica. Estes elementos bruscamente introduzidos na paisagem, algo tão brutal e forte como o próprio MASP nas próprias palavras de Lina Bo Bardi, faz parte de estudo nada ingênuo, mas sim de um estudo bastante elaborado, e com fortes ligações a estética surrealista. Certa vez, conversando com Sergio Lima, lhe sugeri que o Sesc Pompéia possuia algo de surrealista mas que não conseguia detectar; ele respondeu-me que não conseguia ver nada de surreal e mais principalmente de collage. Mas a imagem do Sesc principalmente dos novos edifícios com suas passarelas continuavam a intrigar-me e constantemente ativar a minha mente como uma imagem que me remetia a imagens já vistas, e de reações desconhecidas entre eles e a antiga fábrica . As duas torres pareciam surgidas as vezes de uma gravura de Piranesi, as vezes como dois componentes cerebrais articulados que se comunicam constantemente por suas passarelas, a idéia de Bunker de um cenário de ficção científica , de um grande silo esburacado por um bombardeio, com suas aberturas irregulares, tudo isso sugeria o novo prédio, é uma sucessão de envios incessantes a outras formas, a descobertas, que não se relacionam com nenhuma forma ou edifício das proximidades. O nov edifícios eram literalmente o elemento, o fragmento do inesperado colocado ao lado da antiga fábrica. Entre eles não existe pelo menos a idéia primária de um edifício colado ao outro, apenas colado em proximidade, duas imagens em simultaneidade de shock. Entre um edifício e outro um, solarium com um pequeno riacho coberto por um deck. Não é uma collage, onde se tenta uma aproximação das imagens dos edifícios por simplicidade formal ou tipológica. A reação que se estabelece entre os dois (a antiga fábrica e os novos edifícios) se dá num plano de significados, de parentesco, de relações não explicitas de forma, mas por reações não aparentes, as reações, tais como as colagens surrealistas, deve-se encontrar na cabeça de quem vê estas colagens. A descoberta destas reações é a descoberta da collage. Nesse sentido, tal como os princípios da collage, ou da imagem surrealista, quanto mais distantes sejam estas reações mais brilho poético possui esta imagem. Sabe-se que Lina Bo Bardi nunca teve uma relação direta com o surrealismo, mas não se pode negar que provavelmente em sua formação européia tenha tomado contato com estes princípios, assim como o conjunto da Pompéia tinha um poderoso teor expressionista ."É verdade e isso vem de minha formação européia, mas eu nunca esqueço o surrealismo do povo brasileiro, suas invenções, seu prazer em ficar todos juntos de dançar e de cantar". A isso podia-se associar que como esposa de P.M.Bardi e de seu contato com o mundo da arte do folclore brasileiro, tudo isso colabora a idéia de que Lina conhecia um pouco, ainda que inconsciente, o processo de criação surrealista. Mas, isso não é tão importante importa nesse caso mais o produto que o processo. Lina sabia, isso por seus estudos, investigações sobre "O Direito ao Feio", que não existe um conceito de belo ou feio, e que a beleza surge da conjugação, de duas imagens-inclusive feias-, seu redesloucamento de contexto. Esse conhecimento pude observar um pouco, mediante sua habilidade em justapor objetos distintos, móveis, etc... Em sua casa, onde conseguia conjugar objetos do, folclore de arte e antiguidade européia. Lina tinha uma forte predileção pelo feio, e não cessava de lembrar que "esperava que o conjunto esportivo do Sesc fosse feito, bem mais feio do que o museu de arte de São Paulo".
Afinal o Sesc Pompéia possui todos os ingredientes de uma collage surrealista.

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